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OPERAÇÃO UÇÁ/TUFÃO - FICÇÃO


Eram cerca de 17:20h quando o tenente responsável pelo treinamento falou no rádio:

- Muito bem sargento, vamos terminar logo com isso!

- Ok tenente!

- Ao meu sinal sargento... 3, 2, 1...Já!

Imediatamente duas pick-ups cabine dupla 4x4 fizeram uma curva rápida na estrada de piçarra e pararam bem em frete a edificação construída com madeirite. Um homem soltou de um dos veículos e imediatamente eliminou o "guarda" de papelão que estava na portaria. Outros quatro homens, que estavam no carro da frente, nem sequer olharam para a cena e rapidamente entraram no prédio. Lá dentro os quatro foram diretamente para uma sala, onde um deles arrombou a porta com um ponta-pé. Na sala existia mais um "guarda", prontamente eliminado. Deitado em uma cama estava o "chefe" (representado por um boneco, que pesava 75kg). Nesta simulação em especial, o "chefe" estava sem condições de andar e foi carregado para fora pelo membro mais forte da equipe de resgate. Todos saíram do prédio e entram nos que veículos que saíram em alta velocidade.

Ao final do exercício o tenente mais uma vez falou com o sargento:

- Ok sargento, seu pessoal baixou o tempo em 5 segundos, mas pode ser melhor, muito melhor!

- Sei disso tenente. Na próxima semana estaremos em melhores condições!

Este seria um treinamento normal de uma esquadra especializada em resgate normal, sendo coordenado por uma tenente normal, se não fossem alguns pequenos detalhes: o "chefe" na vida real seria um chefe do tráfico de drogas, a esquadra seria formada por "soldados do tráfico" e tanto o tenente, quanto o sargento, eram ex-militares recrutados pelos narcotraficantes.

No Rio de Janeiro existem centenas de favelas e cada uma delas está sob o crive de um traficante. Entre eles estava um extremamente perigoso, chamado simplesmente de Fritz. Hans "Fritz" Macedo era filho de um traficante com uma antropóloga alemã, que tinha muitos parentes na antiga Alemanha Orienta. Fritz era loiro e olhos azuis. O seu perfil destoava bastante dos demais chefes do tráfico. Ele falava português, alemão, holandês e inglês fluentemente. Tinha estudado até o segundo grau na Alemanha e conhecia vários países. Além disso era autodidata em sociologia e ciências políticas. Um dos seus tios-avós era da Stasi e lhe ensinou muitas coisas sobre a vida.

Apesar de morar na Alemanha por toda adolescência, ele vinha todos os anos para o Brasil, para passar férias, pois seus pais tinham se separado quando ele tinha 5 anos e sua mãe voltou a morar em Spandau, sua cidade natal. Em suas férias no Brasil Fritz ficava mesmo era na favela que seu pai controlava. Se vestia como brasileiro e falava como brasileiro e conhecia todo mundo da vizinhança. Sempre se mostrou pragmático e não se incomodava com a "profissão" de seu pai. Foi no Rio que aprendeu a atirar e a brigar, e onde teve outras iniciações mundanas.

Quando a mãe morreu logo após ele ter terminado o segundo grau, Fritz resolveu morar com o pai no Brasil. O velho Macedo começou a introduzir o filho nos negócios e o garoto mostrou que tinha jeito para a coisa. Quando o seu pai foi preso, Fritz ficou como segundo no comando e recebeu alguns tarefas importantes. Foi nesta época que ele matou pela primeira vez. Quando o seu pai foi preso pela segunda vez, veio a falecer na prisão durante uma rebelião.

Desconfiado que tudo foi armação do segundo em comando na favela, resolveu matar o cara friamente com uma faca e tomou o poder de sua primeira favela. Os traficantes que não aceitaram o seu comando foram sistematicamente mortos. Dai em diante ele iniciou uma campanha de expansão agressiva sobre outras favelas e pontos de venda de drogas. Aumentando cada vez mais o seu "império". Fritz acreditava que todo trabalho devia ser feito com seriedade e apesar de seu jeitão e fala de malandro (jeito esse que podia ser abandonado não hora que ele bem entendesse), exigia de seus homens competência e sagacidade. Por isso sempre procurava se acerca de pessoas competentes e de confiança.

Fritzkorps

Dentro dessa sua visão contratou o ex-tenente pára-quedista Olavo Nunes. Nunes era seu colega de infância e tenente temporário. Depois de sair do Exército, Nunes viu que podia ganhar uma boa grana servindo o tráfico com o que sabia e como o convite de Fritz, foi literalmente a fome com a vontade de comer. Nunes recebeu a missão de montar uma "força de elite", que Fritz chamava em seus momentos de descontração de Fritzkorps. Tendo isso em mente Nunes contratou outros três ex-militares: o tenente Paulo Mendes (ex-EB - Infantaria de Selva), o sargento Cláudio Melo (ex-EB - Material Bélico), o sargento Oliveira Dias (ex-EB - Inteligência Militar) e o cabo Júlio Tavares (ex-Fuzileiro Naval). Esse grupo de militares treinaria cerca de 30 soldados do tráfico, escolhidos pessoalmente por Fritz por sua lealdade, coragem e condicionamento físico. Esses homens não deviam ser viciados em nenhum tipo de droga.

O Fritzkorps foi treinado em combate urbano, explosivos, ações evasivas, sobrevivência e coleta de inteligência. A unidade foi dividida em equipes: assalto (2 equipes de 10 homens cada), apoio (transporte e comunicações) 4 homens, inteligência (2 homens) e sniper (4 homens). Semanalmente uma equipe passava três dias treinando em uma fazenda que pertencia a Fritz no interior do Estado do Rio de Janeiro. O comando geral ficava a cargo de Nunes, a equipe de inteligência era responsabilidade de Dias. Mendes comandava uma equipe de assalto, Melo a outra equipe e Tavares cuidava da equipe de apoio.

Os "snipers" foram treinados especialmente por Melo e normalmente ficavam a serviço de alguma equipe de assalto ou serviam de apoio a equipe de inteligência. Por sinal essa equipe e suas armas, nunca, em hipótese alguma ficava a vista de qualquer pessoa fora do morro. Sempre funcionavam em ações de defesa, em posições secretas e previamente definidas. Quando iam disparar sempre o faziam sob a cobertura de uma rajada de algum fuzil automático. Fritz olhava para essa força como a precursora de uma força maior que seria formada mais tarde.

O império de Fritz era extremamente bem organizado. Ele estava na cúpula, como o chefão, o traficante-mor, aquele que comprava a cocaína para ser distribuída e que garantia o armamento; Logo a seguir vinha os seus gerentes do tráfico. Esses por sua vez tinham sob o seu comando os chefes das bocas de fumo, responsáveis pelas vendas das drogas no varejo e pelo gerenciamento dos lucros obtidos, bem como os soldados do tráfico, muitos deles menores de idade, treinados e armados pelo chefão.

Na parte inferior da hierarquia de domínio situavam-se o olheiro (aquele que, mediante rojões, pipas e até rádio, advertia sobre a presença da polícia ou a chegada de estranhos) e o vapor (office-boy do traficante, que garantia a distribuição da mercadoria no asfalto). A autoridade exercida pelo chefão, pelos gerentes e pelos chefes das bocas de fumo era vertical e inquestionável. Fritz era, no seu reduto, o senhor da vida e da morte, de todas as pessoas reféns do seu domínio. Praticava julgamentos sumários contra os seus desafetos. Quem não era diretamente ligado às atividades do tráfico, devia se deixar cooptar por ele: a lei do silêncio era a primeira providência, que garantia o anonimato da estrutura de poder do tráfico em face da polícia. Fritz também controlava várias polícias, em seu estado paralelo constituído.

Os negócios de Fritz estavam indo muito bem. Ele já controlava dez favelas e morros e os seus contatos no exterior, facilitados por ele ser um "homem cosmopolita" como se autodenominava, se fortaleciam a cada dia. Por isso os barões do narcotráfico (grandes homens de negócio, que não aparecem nas páginas policiais), olhavam para Fritz como um futuro e próspero chefe de cartel.

Projeto Darkside - Movimento Revolucionário Estudantil Brasileiro - MREB

A visão estratégica sempre foi uma característica marcante em Fritz, pois ele não conseguia ver apenas uma coisa de cada vez e entendia muito bem o valor de cada variável na complicada equação do tráfico de drogas. De olho no conflito colombiano, como exemplo, ele sabia que política e tráfico mais cedo ou mais tarde se cruzariam e que o movimento guerrilheiro sempre pendia em servir aos traficantes em busca de recursos. Também sabia que as forças militares e policiais ficavam sobrecarregadas quando tinham que lutar contra a guerrilha e o narcotráfico. Por isso Fritz, com a autorização da cúpula do tráfico arquitetou um plano realmente audacioso, que deu o nome de Projeto Darkside. Secretamente, com a ajuda de seu fiel amigo Olavo Nunes, por sua vez auxiliado por Oliveira Dias, Fritz pretendia financia, treinar e armar um grupo guerrilheiro, para realizar ações armadas no Estado do Rio de Janeiro e depois expandir essas ações para o Estado de São Paulo. Com isso visava saturar o aparelho de segurança do Estado.

O ex-sargento Oliveira Dias tinha contato com uma ex-namorada, de nome Mônica, que cursava sociologia em uma universidade publica carioca. Ela já devia ter se formado a muitos anos, mas isso não a preocupava muito pois o que ela gostava mesmo era da vida política nos Centros Acadêmicos - CA. Dias conheceu Mônica quando ele realizou um missão na mesma faculdade para o EB, onde se infiltrou no CA de Geografia. Até hoje Mônica não sabia que Dias tinham sido militar.

Com o sinal verde de Fritz, Dias começou um lento e bem trabalhado serviço de cooptar um grupo de uns vinte universitários e outros líderes estudantis amigos e amigas de Mônica para montarem um grupo armado. Os discursos de Dias eram bem inflamados e começaram a fazer resultado. Quando disse que conhecia pessoas que pensavam como eles e podiam lhes dá treinamento militar e armas, foi como que se um corrente elétrica varresse o pequeno galpão onde eles se reuniam. Todos no local aceitaram o convite da fazer parte de um grupo armado que iniciaria a libertação do Brasil, que era, na visão de todos eles, dominando por uma burguesia a serviço do capital estrangeiro.

Cerca de 18 meses depois o Movimento Revolucionário Estudantil Brasileiro - MREB estava quase pronto para a ação. Todos os seus 32 membros se mostraram motivados politicamente para entrarem na luta armada e se saíram bem nos treinamentos. A principio Dias só trouxe revolveres .38, para o treinamento, dizendo que com o tempo traria armas melhores. O que de fato fez algum tempo depois quando tinha todo o grupo em suas mãos. Os guerrilheiros urbanos treinaram com metralhadoras, fuzis automáticos AK-47 e AR-15, e até explosivos.

Alegando problemas com a polícia, pois "desconfiava" que estava sendo vigiado, Dias disse que precisava se ausentar e apresentou como seu substituto o argentino Rodrigo Suarez (na verdade o colombiano Guillermo Márquez, membro das FARC). Anteriormente Suarez já tinha sido apresentado como um aliado, que estava envolvido em unir todas as facções de resistência ao fascismo na América Latina. Como já era um velho conhecido do MREB e demonstrava muito carisma e conhecimento operacional, além de um inegável espírito de liderança, Suarez foi aceito como o novo líder do grupo guerrilheiro.

Na verdade esse era mais uma arranjo, pois Fritz via o MREB como um grupo descartável, que serviria como laboratório para operações de guerrilha urbana maiores em sociedade com as FARC. Suarez sabia disso, pois tinha vindo ao Brasil com esse propósito. Por isso nunca participaria diretamente da missões.

A ligação de Fritz com as FARC já durava anos. Ele mesmo tinha ido a Colômbia três vezes e se encontrado com seus representantes em Amsterdã e Marselha para acertar detalhes operacionais. Ficou acertado que quando o MREB fosse declarado operacional, iniciaria uma campanha de ataques com artefatos explosivos contra símbolos do capitalismo estrangeiro, como fast-foods e bancos. Os locais a principio seriam as lixeiras ou caixas do correio. Na verdade Suarez tinha uma longa experiência com carros bombas, e se o MREB não se desintegrasse nos próximos dois anos, era este tipo de atentado que ele queria realizar no Brasil. Paralelamente a tudo isso o treinamento e aperfeiçoamento do Fritzkorps acontecia a todo vapor.

Inteligência

A muito tempo que as operações de Fritz e suas ambições estavam sendo acompanhadas pelo Ministério da Defesa. Depois que uma investigação secreta realizada a três anos atrás detectou a infiltração dos traficantes nas áreas de inteligência da Policia Militar e Civil do Rio de Janeiro, o Exército, em especial, decidiu montar uma operação de inteligência própria, chamada Operação Tufão, que seria completamente desconhecida das autoridades policiais locais e até dos federais.

Dois anos atrás o Centro de Informações do Exército, tinha acionado a 2ª Seção (serviço de informações) do Comando Militar do Leste - CML e esta montou uma grande operação para monitorar as ações de Fritz. Para camuflar esta operação de inteligência foram montadas estórias de cobertura e falsificados documentos para os agentes envolvidos. Se chegou até a alugar imóveis perto do local de operações, onde funcionariam firmas fictícias. Muitos agentes, em sua maioria oficias, se disfarçaram de comerciantes, repórteres e profissionais liberais, muitos destes trabalhando de forma voluntária em ONGs e entidades de defesa dos direitos humanos.

Também é claro, foi montada uma eficiente rede de informantes, que na verdade não sabiam para quem trabalhavam. Entre esses informantes tinha até traficantes. Os nomes e dados desses informantes eram conservados em documentos chamados de FAF (Ficha de Acompanhamento Fonte). Muitas das fichas possuíam, além dos dados pessoais, a foto do informante. Esta imensa operação de inteligência, envolveu militares vindos de outras regiões do país e quase metade do efetivo da 2ª Companhia de Inteligência (Cia Intlg) do EB. Toda a operação estava sob o comando de um tenente-coronel.

Um dos principais pontos de coleta de inteligência estava em um posto médico instalado por uma ONG no morro onde morava Fritz. Lá uma capitã da 2ª Seção trabalhava como paramédica voluntária, durante quatro dias por semana e um sargento era o motorista da ambulância, tirando plantão. Ambos militares coletavam inteligência e indicavam possíveis informantes, mas não controlavam nenhum deles.

Ações

Dados preocupantes começam a ser coletados a respeito das atividades de Fritz. A sua tropa de choque estava bem treinada e tinham uma larga experiência de combate contra a polícia e outros traficantes e o chefão queria ampliar a força para 500 homens. O seu "grupo terrorista" estava chegando perto de se tornar operacional e certamente muitas bombas iam começar a explodir pelas ruas.

Os informantes do EB começaram a falar sobre um carregamento que ia chegar por terra ou mar de uns lança rojão RPG-7 e de pelo menos dois SA-7. Ao que parecia Fritz queria aumentar o calibre do conflito. A possibilidade de metralhadoras .30 e .50 serem incorporadas ao arsenal do chefão também estava aberta.

Para o Ministro da Defesa um chefão do tráfico comandando um tropa de choque de elite, armada com metralhadoras .30 e .50,  com capacidade de abater aeronaves e destruir blindados, que por cima ainda patrocinava grupos terroristas, já estava indo longe demais. Por isso foi dado sinal verde para que CML preparasse uma operação conjunta com as três forças para acabar de vez com esta situação incomoda. Nos corredores do CML Fritz já era chamado de "pequeno Pablo".

Uçá

A operação que foi planejada para acabar com o domínio de Fritz foi chamada de Uçá (espécie de caranguejo dos mangues). Foi decidido que o MREB não deveria passar dos seus primeiros atentados, para que seus membros ficassem caracterizados como criminosos. Pelos informantes nos morros e favelas se soube das datas em que os RPG-7 e os SA-7 chegariam. Os primeiros entrariam no Rio por via terrestre e os lançadores de mísseis antiaéreos seriam transferidos de um navio holandês para um pequeno barco e de lá para terra firme, de onde iriam para um local secreto. Os RPGs deviam ser pegos no morro ou onde fossem guardados, já os SA-7 não deviam chegar em terra firme. Também ficou decidido que os ex-militares deviam ser "neutralizados" e Fritz devia ter o mesmo fim. Segundo a inteligência levantada o mais provável substituto do chefão do tráfico era bem mais discreto e limitado em suas ambições.

Para a execução da Operação Uçá foram escolhidos homens do 1º Batalhão de Forças Especiais do EB e homens do GRUMEC. Os soldados do Exército iriam agir contra os alvos inimigos no morro e os mergulhadores de combate da Marinha iriam interceptar o pequeno barco e capturar os SA-7. Quanto ao MREB o seu campo de treinamento seria estourado por homens do COT da Polícia Federal, que receberiam uma ligação anônima dando toda a ficha do grupo terrorista tão logo a primeira bomba explodisse. Porém os principais líderes do movimento seriam secretamente neutralizados pelo pessoal da inteligência. Os alvos pereceriam diante de "tentativas de assalto". Quanto a Suarez, este devia ser seqüestrado e levado para um local secreto, onde poderia dar boas informações.

As equipes de assalto foram selecionadas e começaram a treinar as suas ações. O pessoal da Marinha estava monitorando o navio holandês, que chegaria ao Rio de Janeiro no máximo em 29 dias a partir do momento em que as equipes foram acionadas. Quando o navio chegasse o GRUMEC usaria lanchas para abordar o pequeno barco do traficantes. Se fossem atacados deveriam agir com força letal.

O assalto ao reduto de Fritz seria realizado de madrugada por uma equipe de 12 homens da forças especiais que seriam transportados por helicópteros para o topo do morro onde o traficante vivia. Eles, usando óculos de visão noturna, desceriam pela mata e atacariam a casa do traficante (um duplex), eliminando todos os homens que ali se encontrassem. Um detalhe de requinte na operação seria a presença de três duplas de caçadores (atiradores de elite) que estariam posicionados em apartamentos, de prédios que ficavam vizinhos ao morro. Sua missão seria abater tantos homens do Fritzkorps quanto pudessem, mas principalmente os líderes e os ex-militares que estivessem de "serviço". Todas as ações deveriam ser feitas de forma furtiva, ninguém deveria suspeitar da ação por parte dos militares, no máximo, por causa dos helicópteros, os ataques poderiam ser atribuídos ao BOPE.    

Assalto Naval

O navio holandês chegou ao Rio por volta das 09:00h do dia marcada, com uma carga banal de fertilizantes. A polícia alfandegária não encontrou nada no cargueiro que permaneceu no porto para receber uma carga de tecidos acondicionados em containeres. Após isso o navio ficou ancorado ao largo do porto, pois a maioria da tripulação passaria a noite na cidade.

Por volta das 21:20h uma pequena embarcação se aproximou do cargueiro e três caixas cumpridas foram descidas por cordas até ela. O pequeno barco manobrou de volta a terra. Toda essa movimentação era acompanhada por homens do GRUMEC que a tudo viam com óculos de visão noturna. Na verdade o barco holandês estava todo tempo sobre monitoração da Marinha e o guarda alfandegário que comandou a inspeção do barco era na verdade do GRUMEC.

Usando duas lanchas rápidas os mergulhadores da Marinha abordaram o barco que transportava os lançadores de mísseis SA-7. As lanchas usadas pela Marinha eram modelos civis e não tinham números ou nomes de identificação e os homens do GRUMEC estavam a paisana, nenhum deles tinha o cabelo com o corte militar e alguns até estavam usando barba. Os mergulhadores de combate usaram fuzis FAL e submetralhadoras Ingram. Curiosamente não houve oposição e ninguém no barco estava armado. Na verdade os traficantes não estavam no barco e sim em terra, esperando pela carga que não chegou. Como a coisa foi feita, sem ordens de prisão ou algo do gênero, pareceu a Fritz que algum grupo rival roubou a sua preciosa carga e que ele tinha um traidor em sua organização. Temendo por sua segurança ele reforçou o morro. Mas os traficantes sempre esperam ser atacados por seus rivais do asfalto para o morro, de baixo para cima e nunca ao contrário. Eles não sabiam o quanto estavam enganados.

Assalto Terrestre

Três dias depois foi a vez do assalto terrestre. Os RPG-7 já estavam na favela a uns 10 dias e a policia já sabia disso. Os militares do Exército souberam por informantes que a policia planejava uma big operação para capturar este armamento e conseguir uma boa imagem junto a opinião publica. A operação policial estava marcada para dali a 4 dias.

A semelhança do assalto dos homens do GRUMEC, o pessoal do EB também não usou uniformes militares e sim trajes civis. Na verdade seriam usadas duas equipes: uma assaltaria o topo do morro (equipes vermelha) e outra realizaria um ataque diversivo a partir do asfalto (equipe laranja). Esta última teria o apoio dos caçadores que tinham a missão de abater membros do Fritzkorps. A ação diversiva aconteceria somente após a equipe vermelha ter iniciado a sua retirada. 

A missão da equipe vermelha seria uma típica missão de Busca e Destruição. Estavam todos com roupas civis, apesar de todas, sem exceção, serem de tons escuros. Alguns usavam tênis outros botas civis. Bonés e gorros também foram usados. As armas utilizadas foram granadas, pistolas 9mm e fuzis automáticas AK-47, para-FAL e submetralhadoras. Todos os soldados usavam intercomunicadores. Os helicópteros usados eram do tipo AS550 HB-350 Fennec, muito parecidos como os Esquilo, o modelo comum entre as policias militares. Todas as aeronaves estavam pintadas de preto e sem nenhuma identificação.

Cada um dos três Fennec usados na operação transportou o piloto e quatro soldados completamente armados. Os soldados foram infiltrados por "fast hope". Apesar de tentar manter a operação o mais "civil" possível, os militares do EB destacaram outros dois Fennec artilhados com metralhadoras .50 e foguetes SBAT 70 para dar apoio a uma possível retirada sob fogo. Esses helicópteros só se aproximariam do morro se solicitados. Tão logo desembarcaram os soldados, os helicópteros se afastaram do local para não chamar a atenção. Todos os helicópteros estavam com as suas luzes apagadas e ficaram a uma altura segura onde não podiam ser vistos ou ouvidos, para evitar chamar a atenção dos traficantes. O Exército solicitou um mês antes que helicópteros da policia realizassem vôos quase que diários sobre os morros e favelas quase, para "acostumar" o inimigo com o barulho das aeronaves. Helicópteros do EB também realizaram estes vôos, neste caso, classificados como vôos de "instrução".

Em terra dois sargentos foram enviados para um área no topo do morro onde estava o paiol dos traficantes. Chegando lá os homens do 1ºBFEsp mataram os dois sentinelas com suas MP5 dotadas de silenciadores. Os traficantes foram mortos com duas balas na cabeça cada um, colocadas de forma precisa, mas para disfarçar receberam uma ou duas rajadas no peito. O local estava cheio de armamentos e caixas de munição. Os sargentos acondicionaram as suas cargas explosivas entre as caixas de munição e acionaram os detonadores providos de temporizadores. Quando saíram do local levaram os três RPG-7 encontrados ali.

A equipe que atacou a casa de Fritz cercou primeiro o local. A casa estava guardada por cerca de oito homens do Fritzkorps. Lá dentro além de Fritz, estavam Nunes e Mendes, que em momento de tensão não saiam de perto do traficante. Perto da casa, existia uma espécie de galpão onde estavam outros oito membros do Fritzkorps. O restante estava lá embaixo perto do asfalto para reforçar a segurança na entrada do morro contra qualquer tentativa de invasão por alguma facção rival, como no momento, imaginava Fritz.

A equipe vermelha era comandada por um capitão chamado Miguel Costa que planejou um ataque furtivo, usando apenas as pistolas de 9mm com silenciadores. Os fuzis de assalto só seriam usados em último caso. Seis homens atacariam a casa e o galpão e quatro ficariam na segurança. Apesar do clima de tensão, causado pelo roubo dos lançadores SA-7, os homens do Fritzkorps esperavam um ataque vindo de baixo e nunca de cima, e de certa forma esperavam ser alertados pelo pipocar de tiros com a tropa da linha de frente lá embaixo. Por isso estavam de certa forma relaxados, o que foi pior para eles.

Demonstrando um sangue frio incrível os homens da equipe vermelha se aproximaram dos guardas e os eliminaram um por um. O pessoal do galpão também foi "silenciado". Alguns guardas foram neutralizados com facas. Com a guarda eliminada e o sua reserva também, os homens entraram na casa propriamente dita. Caminhado com cuidado, com suas pistolas prontas para serem acionadas (os dedos estavam próximos ao gatilho, mas não no gatilho).

Parece irônico, mas o traficante mais perigoso do momento foi morto de forma fria e sem nenhuma cerimônia, enquanto dormia. Nada de discursos, frases finais ou coisas do tipo. Dois tiros de 9mm no peito e depois rajadas de 7.62mm, para disfarçar. Os ex-militares tiveram o mesmo fim. Para disfarçar, siglas da facção inimiga que mais provavelmente atacaria Fritz, foram pichada nas paredes de seu quarto e nos muros da casa. Os homens do capitão Costa coletaram toda a inteligência possível que estava no local e depois atearam fogo ao local.

Quando estavam a caminho de serem exfiltrados o capitão Costa enviou-o a palavra código (Charada) para se iniciar o ataque diversivo. No momento certo, três granadas explodiram na entrada do morro e um tiroteio se iniciou. Os traficantes responderam ao fogo, mas não viam bem quem estava atirando. Com o intuito de impedir qualquer invasão Melo ordenou que seis homens do Fritzkorps tentassem franquear o local de onde viam os disparos. Prevendo o movimento, o tenente que comandava a equipe amarela, já tinha posicionado dois homens, que abateram a queima roupa um traficante e fizeram os outros recuarem. Porém Melo não teve tempo de ver a sua tropas recuar, pois foi mortalmente atingido na cabeça por um tiro certeiro de uns dos caçadores.

Como os homens do Fritzkorps gostavam de usar trajes militares e os seus rostos foram decorados pelos atiradores de elite, que usavam miras com visão noturna, foi fácil abatê-los, no meio de outros traficantes a paisana. Saldo da noite: 7 traficantes mortos na entrada do morro, mais o traidor Melo. No topo do morro foram mortos 18 membros do Fritzkorps, os traidores Nunes e Mendes, e o chefão Fritz. Na mesma noite o ex-sargento Oliveira Dias foi vitima fatal de um "assalto a mão armada" e o ex-cabo Júlio Tavares, simplesmente desapareceu.

Fechando o cerco

Uma semana depois Suarez foi preso pela Policia Federal em Petrópolis por tráfico de drogas, posse ilegal de arma e falsidade ideológica. Foi julgado e condenado a cindo anos de prisão. No momento da sua prisão Suarez estava se preparando para sair do Brasil. Com a prisão de seu líder e o sumiço de Dias, o pessoal MREB se acovardou e não realizou nenhum atentado. Mesmo assim o pessoal do COT estourou o seu acampamento, e recolheu documentos que provavam a sua intenção de realizar ataques terroristas na cidade do Rio de Janeiro. Todos os membros do grupo foram presos e indiciados.

Mas não não foi feita nenhuma ligação entre o MREB e Fritz. A informação que "vazou" para a impressa, foi que outros chefões do tráfico estavam incomodados com os planos megalomaníacos de Fritz e resolveram fazer um ajuste de contas. Segundo se soube, Fritz foi traído por pessoas do morro que facilitaram a entrada de um grupo de extermínio, provavelmente "ex-policiais", enquanto facções rivais aproveitavam a confusão e tentaram tomar o morro.

Ao todo, tanto a operação Tufão quanto a Uçá foram um sucesso, resultando em um duro golpe contra os planos do narcotráfico em transformar o Rio de Janeiro em uma pequena Colômbia, onde traficantes e guerrilheiros se uniriam dando origem a algo pior: o narcoguerrilheiro.


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Assunto Operação UÇÁ

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