SON TAY - VIETNAM - 1970


 

  

 

Em 1970. as Forças Especiais dos Estados Unidos atacaram o Vietnã do Norte para libertar prisioneiros americanos em Son Tay.  No dia 9 de maio de 1970, o 1.127.° Grupo de Atividades de Campo da Força Aérea dos Estados Unidos localizou em algumas fotografias de reconhecimento o que parecia ser um campo de prisioneiros de guerra americanos em Son Tay, a 37 km de Hanói. Essa descoberta deu início a uma série de acontecimentos que culminariam numa das mais audaciosas operações das Forças Especiais em toda a campanha no Vietnã.

 

O 1127.° era uma unidade especial de inteligência que analisava informações sobre as prisões no Vietnã do Norte. Quando seu relatório chegou ao Estado-Maior das Forças Armadas, os oficiais superiores decidiram tentar um resgate. A missão coube ao brigadeiro Donald Blackburn, assessor para contra-revolução e serviços especiais da Força Aérea americana, que recebeu sinal verde para libertar os prisioneiros do campo de Son Tay.  Com o objetivo de reunir as informações necessárias ao afague, foram postas à disposição várias fontes de inteligência, incluindo o satélite de reconhecimento Big Bird e aviões de controle remoto SR-71 Blackbird e Butfalo Hunter. Em 5 de julho foi enviado ao Estado-Maior um relato completo da situação e, em seguida, o brigadeiro recebeu permissão para executar o plano de resgate.

 

Blackburn comandou os guerrilheiros filipinos na Segunda Guerra Mundial e o Grupo de Operações Especiais no Vietnã. Pretendia conduzir o afague, mas foi preterido por ter informações secretas e delicadas do serviço de inteligência. O escolhido foi o coronel "Buli" Simons, experiente oficial das Forças Especiais que já servira sob seu comando.

 

A força de ataque ficou conhecida como JCTG (Joint Contingency Task Group, grupo-tarefa conjunto de emergência), e a missão recebeu o nome-código de "Ivory Coast" (Costa do Marfim). Para os treinamentos, foi designada uma área da base da Força Aérea de Egiin, na Flórida. O general Leroy Manor, comandante de operações especiais da Força Aérea dos EUA em Egiim, ficou com a coordenação geral da operação, tendo o coronel Simons como assistente e líder do grupo de ataque.

 

O período ideal para executar o plano era de 20 a 25 de outubro, quando o clima e a lua estariam favoráveis. Manor iniciou então a escolha do pessoal de planejamento e dos grupos aéreos, enquanto Simons selecionava os integrantes da força de ata­que. Centenas de soldados das Forças Especiais se apresentaram em Fort Bragg como voluntários, sabendo apenas que a missão seria arriscada e que "Buli" estaria no comando. Inicialmente destacaram-se quinze oficiais e 82 suboficiais, na maioria pertencentes aos 6.° e 7.° grupos das Forças Especiais. Entre esses 97 Boinas Verdes seriam escolhidas mais tarde as equipes de assalto e de apoio.

Para tornar o treinamento mais real possível, construiu-se uma réplica das instalações da prisão de Son Tay. O cuidado com os detalhes fez com que essas instalações fossem projetadas de forma a serem desmontadas durante o dia e montadas rapidamente à noite, escapando da vigilância dos satélites soviéticos. O treinamento noturno tornou-se fundamental, já que a missão teria de se beneficiar da escuridão. Como recurso adicional, providenciou-se uma maquete do acampamento norte-vietnamita.

A força de ataque iniciou seu treinamento específico em 9 de setembro e logo teve de enfrentar dois problemas ligados à eliminação dos guardas da prisão de Son Tay. Nem mesmo os melhores atiradores de Simons estavam conseguindo acertar mais do que 25% dos disparos, à noite. A dificuldade foi sa­nada com o advento dos fuzis M 16 equipados com sistema de pontaria altamente sofisticado. O outro problema era a necessidade de manter sob fogo in­tenso as torres dos guardas em torno do campo. A solução foi conseguir um helicóptero HH-53 Super Joily Green Giant com metralhadoras de 7,62 mm, que se encarregaria de destruir as torres.

Depois de chegar a Son Tay num helicóptero HH-3 e cinco HH-53, que podiam ser reabastecidos em vôo, o grupo de ataque se dividiria em três equipes. A primeira delas, com catorze homens, deve­ria saltar de um HH-3 em queda controlada dentro do campo de prisioneiros, para o assalto direto. O próprio Simons comandaria a força de apoio, formada por 22 homens. O terceiro grupo, de comando e segurança, contava com vinte homens.

No dia 28 de setembro se iniciaram os ensaios do ataque, com a participação das equipes da força aérea que pilotariam os helicópteros e os aviões armados: três C-130, sendo dois do tipo Combat Talon equipados para comando e controle, e aeronaves de ataque A-1. O desembarque e o assalto foram ensaiados até a exaustão. Além disso, havia a necessidade de planos alternativos, caso uma das três equipes não conseguisse chegar ao alvo.

O coronel Simons era um profundo conhecedor de armas de foqo e, durante os exercícios, requisitou equipamentos especiais e novos armamentos. As equipes receberam espingardas de caça calibre 12, carregadores de trinta cartuchos para os M 16, pis­tolas automáticas calibre 45, carabinas CAR-15 pa­ra a força de assalto, lançadores de granada M-79, maçaricos para corte, serras para correntes e óculos especiais de proteção. Alguns homens levariam ainda máquinas fotográficas, a fim de registrar as condições de vida dos prisioneiros. Com o objetivo de garantir as comunicações em terra durante a mis­são, os 56 homens do grupo de Simons receberam 92 rádios: dois AN-PRC-41 que seriam utilizados nos contatos com o Pentágono através da estação de Monkey Mountain, no Vietnã do Sul; 10 AN-PRC-77 para pedir apoio aéreo; 24 AN-PRC-88 para os contatos entre os grupos em terra e 56 rádios de sobre­vivência AN-PRC para fuga e evasão.

Blackburn estava autorizado a levar o pessoal até o sudeste da Ásia em 27 de outubro. Ele e Simons seguiram em direção à área em 1.° de novembro, incumbidos de realizar o trabalho de base, e voltaram aos EUA no dia 12, quando a torça de ataque se preparava para a viagem à Tailândia. Seis dias depois, o presidente americano, Richard Nixon, autorizou o início da missão. 

Na noite de 20 de novembro, o grupo de resgate foi transportado até a base da Força Aérea tailandesa de Udorn, com o ataque marcado para as 23hl8, hora local. Como forma de distrair a atenção do inimigo, os porta-aviões Oriskany, Ranger e Hancock lançaram suas aeronaves horas depois, simulando um ataque a Hanói. O assalto ao campo de prisioneiros começou por volta das 2hl8 da madrugada de 21 de novembro: um C-130 clareou a área com projéteis iluminantes e o helicóptero HH-53, de codinome "Appie Tree" (macieira), abriu fogo e destruiu as torres de guarda.

Logo depois, o HH-3 pousou dentro da prisão, a fim de desembarcar o grupo de assalto, comandado pelo major "Dick" Meadows. Sem perder tempo, Meadows saiu correndo e gritando em seu megafone: "Nós somos americanos, fiquem de cabeça baixa. Somos americanos! Isto é um resgate, esta­mos aqui para levá-los. Estaremos em suas celas em um minuto". Parte do grupo disparou suas armas, enquanto os outros corriam até as celas do campo de prisioneiros.

Pouco depois, o grupo de comando e segurança pousou do lado de fora do presídio. Porém, a força de apoio comandada por Simons desceu a 400 m do alvo, onde funcionava uma escola secundária, segundo seus mapas. Na verdade, o prédio abrigava conselheiros chineses e soviéticos, que cooperavam com o Exército norte-vietnamita. Tirando partido do erro de localização, Simons decidiu atacar os conselheiros. Em minutos, vários ocupantes do quartel foram mortos, o que também tornou-se uma forma de impedir que os defensores da prisão de Son Tay recebessem reforços, surpreendendo o grupo de ata­que. Em dez minutos a área estava limpa e Simons e seus homens puderam ser levados de helicóptero até o campo de prisioneiros, onde ajudaram as outras equipes a eliminar vários guardas.

Apesar da perfeição do assalto, ocorreu uma desagradável surpresa: não havia prisioneiros americanos no campo de Son Tay. Eles tinham sido trans­feridos para outro lugar algumas semanas antes da tentativa de resgate. Como ninguém queria correr o risco de infiltrar agentes em terra naquela área, a mudança não fora detectada pêlos serviços de inteligência dos EUA. Além disso, houve uma excessiva confiança nas fotografias de reconhecimento.

Menos de meia hora depois do início do ataque, os americanos já estavam de volta a seus helicópteros, retornando à Tailândia. A única baixa do grupo havia sido um soldado ferido. Todos estavam frustrados, mas o plano mostrara-se taticamente perfeito. Até mesmo o pouso errado de Simons dera bons resultados, proporcionando um assalto de surpresa a uma unidade inimiga que não havia sido previa­mente localizada.

Os soldados da força de ataque tiveram reações confusas durante o vôo de volta à Tailândia. Eles estavam desapontados depois de tanto treinamento e esforço sem que nem ao menos um prisioneiro de guerra fosse resgatado. Ao mesmo tempo, mostravam-se contentes por voltarem a seu país e orgulhosos pela "precisão" com que o plano tinha sido executado.

O ataque ao campo de prisioneiros de Son Tay não foi encarado como um fracasso total, mesmo sem a libertação dos prisioneiros. Ficou provado, de forma incontestável, que os norte-vietnamitas mostravam-se vulneráveis a ataques contra instalações dentro de seu território, desde que as missões tivessem rigorosos planejamento e execução. Uma das conseqüências práticas da missão foi a necessidade que os norte-vietnamitas tiveram em destacar tropas adicionais para aumentar a segurança de áreas estrategicamente importantes. Além disso, eles perderam parte da credibilidade que tinham junto aos soviéticos e chineses, que passaram a temer no­vos ataques dos EUA ao Vietnã do Norte, com a utilização de torças especiais. De maneira indireta, a missão provocou também uma certa melhoria no tratamento dispensado pêlos norte-vietnamitas aos prisioneiros de guerra americanos.

Outro detalhe que pesou na análise favorável do ataque foi a morte de dezenas de inimigos, muitos deles conselheiros de nações estrangeiras, pelo gru­po de Simons, que não sofreu nenhuma baixa. Os soldados das Forças Especiais e os pilotos da Força Aérea e da Marinha dos EUA executaram suas tarefas com grande habilidade, de acordo com suas missões. Foi um assalto clássico: chegar de surpresa, atirar muito e sair rápido, causando o maior número possível de baixas. Mas o serviço de inteligência se enganara, o que demonstrou com clareza a grande importância do fornecimento de informações precisas e correias quando se trata de operações especiais, principalmente em missões executadas dentro do território inimigo. Até hoje não se sabe com certeza a causa da transferência dos prisioneiros do campo de Son Tay. E provável que os norte-vietnamitas tenham previsto a possibilidade de uma tentativa de resgate, já que os EUA aumentavam a pres­são no sentido de libertar seus soldados presos no sudeste da Ásia.

De qualquer forma, o ponto fundamental comprovado pelo ataque a Son Tay foi a reafirmação do argumento que vinha sendo utilizado pelo brigadeiro Donald Blackburn desde sua nomeação para o car­go de assessor para contra-revoluçâo e serviços especiais: o Vietnã do Norte mostrava-se vulnerável a ataques em seu território, os quais poderiam libertar muitos prisioneiros americanos.

PRISIONEIROS

Durante os vinte anos de envolvimento direto dos EUA no Vietnã, cerca de oitocentos americanos foram mantidos prisioneiros, na maioria tripulantes de aviões abatidos. Eles viviam em diversos campos espalhados pelo norte do pais. Os vietcongues não os consideravam prisioneiros de guerra, mas simples criminosos, e diziam que seu tratamento era "condescendente e humano", garantindo que só eram punidos aqueles que demonstravam atitude "não progressista ou reacionária". O governo dos Estados Unidos tentou libertar esses homens, mas as negociações mostravam-se difíceis, já que Hanói relutava em admitir a presença de suas tropas no Vietnã do Sul. Alguns prisioneiros foram libertados ocasionalmente. Em 1970, as Forças Especiais dos Estados Unidos fizeram a única tentativa de libertar seus prisioneiros no norte. Embora o campo de Son Tay estivesse vazio, o ataque obrigou o governo de Hanói a melhorar as condições de vida dos presos.

Depois das visitas de Nixon à China e à União Soviética, em 1972, representantes de ambas as j partes reuniram-se em Paris e fizeram um acordo de repatriação de prisioneiros, iniciado em fevereiro de 1973. Nos dois meses seguintes, cerca de seiscentos americanos foram libertados. Sabe-se que outros setenta morreram nas prisões do Vietnã do Norte. Apesar das freqüentes tentativas de fuga, apenas trinta americanos conseguiram escapar.

TRANSPORTE AÉREO

As Forças Especiais usaram dois tipos de helicópteros no ataque a Son Tay: o HH-53 Super Joily Green Giant e o HH-3 Joily Green Giant.

Projetado por Sikorsky, o HH-53 foi construído como um veículo pesado de transporte e assalto, tornando-se o mais veloz e potente helicóptero da Força Aérea dos EUA no final de 1967, quando entrou em serviço. Mesmo com seu peso máximo de 19.050 kg, com 37 soldados ou 24 macas, o HH-53 tem um alcance de 870 km, com tanques extras de combustível e velocidade máxima de 300 km/h. Em Son Tay, os HH-53 . tinham a missão de destruir as torres de guarda em torno da prisão, usando suas três metralhadoras de 7,62 mm.HH-3 JOLLY GREEN GIANT

O bimotor Joily Green Giant também foi projetado pela Sikorsky para busca e resgate em qualquer condição atmosférica, fazendo seu primeiro vôo em 1963.

Totalmente carregado, com quatro tripulantes e até trinta soldados ou 2.270 kg de carga, o HH-3 possui alcance máximo de 1.000 km. Operando de Udorn, na Tailândia, ou de Da Nang, no Vietnã do Sul, o Joily Green Giant era capaz de chegar a qualquer ponto do território vietcongue e retornar à base. No ataque a Son Tay, os helicópteros foram reabastecidos durante o vôo até o objetivo.

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