A Operação Frankton foi uma das
operações especiais britânicas mais famosas da Segunda Guerra Mundial, tanto
pelo arrojo e ousadia de seus executores como pelas conseqüências por eles
sofridas. O objetivo desta operação
planejada pelas Operações Combinadas era sabotar o porto francês
de Bordeaux.
Participaria do ataque 12 homens do Royal Marines Boom
Patrol Detachment - RMBPD, da Marinha Real.
O grupo usaria caiaques para dois homens tipo Cockle MK II
kayaks. Por isso eles ficaram conhecidos como os Cockleshell Heroes. Os homens
seriam liderados pelo Major Herbert "Blondie" Hasler.
A criação
do RMBPD
Anteriormente o Major
Hasler tinha desenvolvido a idéia de penetrar em portos, usando caiaques, com o
objetivo de destruir embarcações com cargas explosivos poderosas.
Porém o Almirantado considerou a idéia impraticável e uma tentativa
de Hasler, na primavera de 1941, para interessar o QG das Operações Combinadas (COHQ
neste tipo de ações,
falhou, devido em parte, a pré-existência da Seção de Barco Especial (SBS).
Porém em dezembro de 1941 os italianos conseguiram penetrar no porto
de Alexandria usando "torpedos humanos". Eles infligiram sérios danos nos
encouraçados britânicos Elizabeth e Valiant. Churchill decidiu que a
Grã-Bretanha devia ter capacidade semelhante e
o projeto de Hasler foi lembrado, e o major foi
enviado ao Centro de Desenvolvimento das Operações
Combinadas para desenvolver suas idéias o mais cedo possível.

Inicialmente ele e alguns homens
alocados
para a sua equipe, se concentraram no "barco explosivo a motor" usado
pelos italianos em um ataque a Marinha
Real em Suda Bay em março de 1941. Em um ataque semelhante ao de Suda Bay contra Malta, os italianos falharam e alguns barcos foram
capturados. Por questões de segurança (e decepção) a
equipe de Hasler foi designada "Boom Patrol Boats".
Hasler
teve a idéia de usar este tipo de barco e
caiaques em um assalto futuro - os primeiros para encontrar o caminho por entre
os obstáculos
da superfície e os últimos para os Commandos escaparem. Mountbatten concordou com esta
tática de
aproximação e assim inapropriadamente a equipe foi nomeada de Royal
Marine Boom Patrol Detachment (RMBPD). A plausibilidade desta designação
foi aumentada pela missão recebida de realizar patrulhas defensivas do porto de Portsmouth.
Hasler montou sua base em Southsea. Ele recrutou seus oficiais na
Royal Marine Small Arms School em Gosforth e seus homens no Royal Marine
Auxiliary Battalion em Portsmouth. Ao todo Hasler recrutou 34 membros para sua
nova unidade. Hasler os selecionou por sua autoconfiança, estabilidade mental,
tenacidade e resistência; e todas estas qualidades eram necessários para os
meses de treinamento duro que enfrentariam. O treinamento era difícil, muito
difícil.
Inicialmente o único na unidade que sabia qualquer coisa a respeito de canoas
era o próprio Hasler, mas por causa da abundância de inteligência natural entre
os seus homens logo todos atingiram as habilidades necessárias. Eles aprenderam:
navegação noturna, remar rapidamente e silenciosamente, fuga e evasão,
além de técnicas de sabotagem e explosivos.
A canoa
desenvolvida por Hasler era robusta, capaz de levar dois homens, 75 kg de carga
e era desmontável, ao contrário das usadas pelo SBS. Primeiro veio a Cockle Mark
I e depois a Cockle Mark II, que seria usada na Operação Frankton.
Esta canoa (caiaque) tinha cerca de 5m de cumprimento, 72cm de largura e
28cm de altura. Ela pesava 35kg vazia.
Por esse
tempo os alemães estavam tendo sucesso em furar o bloqueio naval dos aliados. O porto francês de Bordeaux,
a aproximadamente 75 milhas (120km) acima do Rio Gironde, era um dos principais portos
envolvidos no esforço nazista. O porto de Bordeaux
era usado para receber navios mercantes que levavam suprimentos para as unidades
alemãs que estavam estacionadas
naquela parte da França e também quebravam com sucesso o bloqueio Aliado
entre o Japão e Alemanha. Submarinos alemães também usavam a área como base.
Qualquer navio mercante nazista que passasse pelo Canal da Mancha podia
ser abastecido ou reparado em Bordeaux e seguir para o Mediterrâneo ou além e os
poucos recursos da Marinha Real britânica não podiam impedir totalmente este
fluxo. Um maciço bombardeio aéreo por parte da RAF foi descartado pois o risco
de haver muitas vítimas civis era considerável.
O plano
Em setembro de 1942 o
COHQ decidiu estudar a possibilidade de usar o RMBPD e os
nadadores-canoistas de Hasler
contra Bordeaux. O plano desta operação era muito simples: a destruição de navios no
porto de Bordeaux e o bloqueio do mesmo devido os destroços das
embarcações afundadas, usando para isso seis equipes de remadores de caiaques que seriam
desembarcadas a 10 milhas da embocadura do Rio Gironde, remariam 70 milhas rio
acima até o porto, colocariam as suas minas magnéticas e depois iriam para a
Espanha com o auxilio da Resistência francesa.
Os homens escolhidos
para a missão treinaram meses a fio e só souberam do objetivo quando estavam
dentro do submarino que os levava para Bordeaux. No dia 7 de dezembro de 1942,
por volta das 20:00h o
submarino HMS Tuna deixou os incursores a 10 milhas da embocadura do Rio Gironde.
A força
incursora estava dividida em duas equipes. Os caiaques "Catfish" (Major Hasler e
Marine Sparks), "Crayfish" (Corporal Laver & Marine Mills) e "Conger" (Corporal
Sheard e Marine Moffatt) formavam a Equipe A e "Cuttlefish" (Tenente MacKinnon
e
Marine Conway), "Coalfish" (Sargento Wallace e Marine Ewart) e "Cachalot"
(Marines Ellery e Fisher), a Equipe B. Cada caiaque levava 8 minas.
A aproximação

O caiaque "Cachalot"
teve a sua armação quebrada quando estava sendo passado pela escotilha do submarino
para ser desembarcado. Os seus tripulantes, chegaram a chorar, por
não poderem participar da missão. Apenas 10 homens em cinco caiaques iriam cobrir as
75 milhas rio acima até seus objetivos.
Quando se aproximavam
do estuário do Gironde, os caiaques foram açoitados por uma violenta maré, com
ondas de cinco pés. O caiaque "Conger" foi
danificado e teve que ser rebocado pelos outros caiaques. Uma vez próximos da
costa, os tripulantes do "Conger" tiveram que nadar até a costa, pois estavam
atrasando os demais companheiros. Como Sheard e Moffat não chegaram a praia
presumiu-se que se afogaram. Na verdade o corpo de Moffat foi achado mais tarde na praia de
Bois en Réy, mas o corpo de Sheard nunca foi encontrado.
O "Coalfish"
sucumbiu a maré quando os caiaques entraram no
estuário do Gironde. Algum tempo depois a sua
tripulação foi aprisionada pelos alemães perto do farol de
Pointe de Grave. O Almirante Bachman ordenou que eles fosse fuzilados, o que
aconteceu logo após a meia-noite de 12 de dezembro de 1942. Apesar de
pressionados eles não tinham
revelado nenhuma informação sobre o ataque. A
tripulação do "‘Cuttlefish" – teve que
abandoná-lo depois que este foi danificado. Algum tempo depois a sua tripulação foi pega em La Réole pelos
alemães e entregues a Gestapo.
Após cobrir 23 milhas, o Major Hasler só
dispunha de duas embarcações e suas respectivas tripulações para completar a missão. Junto como "Catfish",
estava o "Crayfish". Com os alemães
alertados sobre algum ataque de Commandos naquela região, as patrulhas ao longo do rio
aumentaram. As 06:30h Hasler e
seus
homens encontraram um local conveniente, camuflaram os caiaques e esperaram
anoitecer para prosseguir pelo Gironde.
Alguns pescadores e umas mulheres de uma aldeia próxima descobriram-nos mas os
britânicos convenceu a todos que não estavam ali para lhes fazer mal e não foram
delatados. Na segunda noite (de 8 para 9 de dezembro), o avanço se tornou
rotineiro, apesar dos homens remarem sob muito frio e o gelo se formar sob a
parte superior dos caiaques. No momento em que pararam novamente e se camuflaram, os
marines só tinha desta vez, vacas como companhia.
Um
problema urgente ocupou as mentes de Hasler e seus homens. Como progrediram rio
acima a sincronização e a duração das marés tornava-se cada vez mais críticos os seus cálculos. Tinham que considerar a logística do ataque e as
condições da maré antes e depois da incursão. Na noite seguinte haveria 3 horas
de maré cheia, 6 horas maré baixa e depois mais 3 horas de maré cheia.
Definitivamente a fuga, usando a maré baixa era impossível.
Na
terceira noite (de 9 para 10 dezembro) eles reduziram o ritmo das remadas e se
esconderam em uma pequena ilha durante o período da maré baixa. Eles estavam
atrasados e não podiam alcançar o porto na noite seguinte com tempo suficiente
para completar a missão e se retirarem em segurança. Sendo assim Hasler decidiu
estabelecer um acampamento básico de antemão na quarta noite (de 10 para 11 de
dezembro)
dentro de uma distância fácil de cobrir até o porto. Um local satisfatório foi achado
por volta das
23:00h. No dia seguinte os homens prepararam suas minas
magnéticas e seus equipamentos para o ataque. Hasler decidiu que
"Catfish" cobriria o lado oeste das docas e "Crayfish" o leste. Os
detonadores das minas foram fixados para as 21:00h.
O ataque
Na quinta noite (de 11 para 12 de dezembro) ambas os caiaques entraram na bacia sem dificuldade.O "Catfish" colocou 8
minas magnéticas em quatro barcos, inclusive no barco patrulha Sperrbrecher. Uma
sentinela na coberta do Sperrbrecher
teve a sua atenção chamada em direção ao "Catfish", chegando até a
iluminar o local com uma lanterna. Mas não deu o alerta,
por acreditar que era um pedaço de madeira flutuando, pois a tripulação
permaneceu imóvel em seu caiaque bem camuflado, como tinha sido treinada para
fazer.
O "Crayfish" também colocou 8
minas em duas embarcações, 5 em
um navio cargueiro e 3 em um pequeno barco.
O método
usado por Hasler e seus homens para a colocação das minas foi aprendido pelo Major
junto a Tropa 101 dos Army Commandos, que usou o método em seu assalto a Boulogne,
onde se afundou um navio-tanque. O método da Tropa 101 era abaixar a mina usando
uma barra de 2m, e a soltar suavemente até ser fixada pelo imã ao casco da
embarcação; a barra era
puxada e usada novamente para colocar as minas subseqüentes. Como quase todos
navios eram divididos em compartimentos estanques,
foram necessárias várias minas para cada navio, normalmente três, incluindo a
casa de máquinas para causar o máximo dano. Realmente os
danos no porto de Bordeaux foram severos.
Foi afundado um navio e avariado quatro outros severamente e o porto ficou
danificado por meses.
A fuga
Após
colocarem as minas magnéticas os homens saíram rapidamente do local. As duas canoas se encontraram depois por
acaso na Ilha Caseau. Eles continuaram juntos na jusante até o fim da retirada
por volta das 06:00h quando as tripulações fugiram em suas canoas,
com a distância de 400 metros uma d
a outra.
Pouco depois as tripulações tiveram que deixar os seus caiaques
(que foram afundados) e se moverem a
pé, para se unirem com a Resistência francesa na cidade de Ruffac. Os Commandos
usavam um kit elementar de fuga, como mapas de seda, bússolas, mais ração. Os
homens tinham a opção de escaparem com seus uniformes, e se capturados serem
tratados como prisioneiros de guerra, ou usar roupas civis e serem tratados como
sabotadores. Depois de algum tempo Sparks e Hasler optaram em usar roupas civis. Os alemães
presumiram acertadamente que os britânicos viajariam para o sul em direção da
Espanha. De fato, eles fizeram isto, um percurso de 100 milhas de Bordeaux, só
que a jornada levou dois meses.
Na fuga Laver e Mills,
que se
moviam separadamente de Sparks e Hasler, foram pegos pela polícia francesa e
entregue aos alemães em Montlieu e
depois levados para Paris, e acreditasse que juntamente com os homens capturados em La
Réole foram fuzilados em 23 de março de 1943.
Com ajuda da Resistência, Sparks e
Hasler chegaram à Espanha e então a Gibraltar separadamente . Mas mesmo aqui houve problemas. Hasler usou de sua patente e conseguiu ser transportado para a Inglaterra.
Porém, Sparks não teve a mesma sorte e foi preso. Isto porque o Chefe das Operações
Combinadas, Sir Louis Mountbatten, tinha assumido que todos os homens que
participaram da missão estavam mortos, desta forma qualquer um reivindicando ser um
deles deveria ser tratado com suspeita.
Sparks foi postos sob a guarda
da Polícia Militar e levado para a Inglaterra. Porém, ele despistou os guardas em Euston Station, Londres
e, depois de visitar o seu pai, foi se apresentar no QG das Operações
Combinadas. Hasler recebeu a DSO e Sparks a DSM. Laver
e Mills receberam menções póstumas em despachos.
Depois da
assalto a Bordeaux, Sparks serviu na Birmânia, África e Itália. Em 1946 ele foi
trabalhar na London Transport como motorista e depois de 1952 foi
trabalhar como tenente na polícia malaia durante a Insurreição naquele país. Três anos
depois ele trabalhou como conselheiro do filme Os Heróis de Cockleshell com Mel
Ferrer e Trevor Howard, e visitou os EUA para promover o filme. Ele também
publicou O Último dos Heróis de Cockleshell (1992) e Cockleshell Commander
(2002).
Cockleshell Heroes
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Tripulantes |
Caiaques |
O que aconteceu |
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Marine Fisher |
Cachalot |
Had to abandon due to damaged canoe |
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Marine Ellery |
Cachalot |
As above |
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Corporal Shear |
Conger |
Drowned |
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Marine Moffat |
Conger |
Drowned |
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Sergeant Wallace |
Coalfish |
Captured and shot |
|
Marine Ewart |
Coalfish |
Captured and shot |
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Lieutenant Mackinnon |
Cuttlefish |
Captured and shot |
|
Marine Conway |
Cuttlefish |
Captured and shot |
|
|
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|
|
Corporal Laver |
Crayfish |
Captured and shot |
|
Marine Mills |
Crayfish |
Captured and shot |
|
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Major Hasler |
Catfish |
Made it back to Britain |
|
Marine Sparks |
Catfish |
Made it back to Britain |
Royal Marines
Boom Patrol Detachment - RMBPD
O RMBPD foi formado no
dia 6 de julho 1942, especificamente para atacar navios inimigos. Era a
primeira unidade de pequenos barcos completamente formada pelos Reais Fuzileiros
Navais,
embora outros fuzileiros tenham servido e continuariam a servir em unidades como as
Seções Especiais de Barco e Esquadrão Especial de Barco. Seu
fundador-comandante foi o Major H.G."Blondie" Hasler, um oficial regular e
iatista experiente. O nome da unidade e o seu apelido,
Boom Patrol Boat, veio do tipo embarcações usadas
por ela, baseadas em alguns alguns "barcos
explosivo a motor" italianos capturados, de vários
que foram usados em um ataque fracassado contra Malta.
A embarcação era uma
lancha planadora de 16 pés com um carga de 500lb, que era abandonada pelo piloto
perto do alvo. é interessante notar que este artefato nunca foi usado em ação.
Outra opção era usar
caiaques submersos de 12 pés a motor (elétrico), conhecidos como
"Sleeping Beauties",
com um único assento. O piloto o controlava o caiaque com um
joystick e o levava até o seu alvo.
Até que este artefato estivesse pronto 25 nadadores-canoistas foram treinados em
ações com caiaques, barcos de assalto e pequenos barcos a remo. A primeira missão
do RMBPD foi a Operação Frankton.
Após essa operação o contingente do RMBPD foi aumentado,
porém várias operações posteriores foram canceladas
em 1943. Em fevereiro de 1944 dezoito
homens, da
Earthworm Section
foram enviados para o Oriente Médio.
Lá eles ficaram subordinados ao Raiding
Forces. Sua primeira
operação foi contra navios alemães na Baía de Portolago,
em Leros, em meados
de junho. Três destacamentos de canoas foram desembarcados pelo Marinha Real e
se infiltraram no porto, colocando minas, que afundaram três
navios de escolta e avariaram três contratorpedeiros. Todos escaparam e foram
resgatados pelo Marinha Real. Outros ataques foram executados no Mar Egeu, mas
a falta de alvos valiosos forçou a seção a retornar para a
Grã-Bretanha em outubro de 1944. Uma proposta de enviar duas seções ao Extremo Oriente não deu em
nada. Pouco depois Hasler foi promovido a Tenente Coronel e segundo em comando
do Small Operations Group.