
8 - O DIA-D HORA A HORA
0h - 1h

Pathfinders britânicos ajustam seus relógios na noite de 5/6 de junho de 1944 em frente a um Armstrong Whitworth Albemarle
antes de saltarem na Normandia

Os
Pathfinders da 101a Airbone saltaram em primeiro lugar, 15
minutos depois da meia-noite. O céu está nublado, a terra coberta de
lama, a lua intermitente. A 0h50, a leste de Monteburgo, o
Tenente-Coronel Hoffmann, que comanda um regimento de posição da 709a
DI, vê, a um raio de luar, corolas que se aproximam do chão. Suas
sentinelas atiram. Uma metralhadora de mão americana responde.
1h - 6h
A
1h11 o 84o Corpo alemão, em Saint-Lô, recebe, de Caen, uma
comunicação de sua 716a DI: “Pára-quedistas a leste das
embocaduras do Orne, região Ranville-Bréville e orla norte da floresta
de Bavent”. A 1h45, recebe, recebe de Valones uma mensagem da 709a
DI: “Pára-quedistas inimigos ao sul do Saint-Germain-de-Varreville e
perto de Sainte Marie-du-Mont. Segundo grupo a oeste da grande estrada
Carentan-Valognes, dos dois lados do Merderet”.
As
duas regiões indicadas estão nas duas alas do corpo de exército. A
operação é, assim, importante. O General Marcks cancela sua viagem a
Rennes. A realidade substitui a ficção.
Às
2 horas, novas informações chegam a Caen e de Valognes. Pára-quedistas
foram capturados. Pertencem à 3a Brigada Aerotransportada
britânica e aos regimentos 501o, 505o e 506o
de pára-quedistas americanos. Três, das quatro divisões de infantaria
aérea conhecidas pelo inimigo, estão, pois, comprometidas. Os grandes
chefes são acordados: Dollmann no Mans, Salmuth em Tourcoing, Rundstedt
em Saint-Germain-en-Laye. Em Roche-Guyon, Speidel ainda espera, antes de
alertar Rommel, que está em sua casa de Herrlingen.
A
leste do Orne, as principais missões da 6a Airbone são
realizadas. A cabeça-de-ponte de Rainville consolida-se. São
dinamitadas as pontes do Dives, a de Troarn inclusive, destruída quase
que unicamente pelo Major Roseveare, na retaguarda de sua guarnição. O
Castelo de Varaville é tomado. Cai a bateria de Merville. Foi atacada
às 2h45, pelo 9o Batalhão de Pára-quedistas, que sabia sua
lição de cor. Às 3h45, depois de vivo combate, o Tenente-Coronel
Ottway solta o pombo-correio com a comunicação: bateria tomada.
Percebe-se então que a bateria não continha senão os canhões 75
quase inofensivos em vez dos temíveis 150 que os invasores queriam
amordaçar.
Às
3h30, chega o General Gale, com a terceira vaga, que traz material
pesado. Sua divisão toma o Orne, semeia a confusão entre o Orne e o
Vire, captura homens pertencentes à 716a DI e à 21a
Pz. Suas perdas graves são poucas, porém mais da metade de seus 4.800
homens estão dispersos, por causa dos erros da aterragem, e não
responde à chamada.
A
operação de transporte aéreo americana é muito complicada. Os
historiadores oficiais não se julgaram aptos a reconstituí-la com
exatidão. A sebes e a bruma apareceram para isolar os pequenos grupos
de pára-quedistas e povoar de fantasmas o campo estranho onde caem os
rapazes que vêm das grandes planícies do Novo Mundo. Os brejos e as
inundações causam vítimas. Não é exato que regimentos inteiros
tenham sido tragados pelos baixios do Merderet, segundo a versão
romanceada que compara o episódio com o que ocorreu nos pântanos de
Saint-Gond ou nas águas estagnadas de Austerlitz; mas é absolutamente
verdade que muitos pára-quedistas fazem um esforço sobre-humano para
sair do lamaçal, e alguns se afogam sob o peso do próprio equipamento.
De 13.000 homens das duas divisões de transportes aéreos, menos de
2.500 se reagrupam imediatamente. Como instrumento de reunião,
receberam matracas, que enchem a noite normanda, saturada de umidade, de
um estranho concerto de cigarras. Mas seus gritos são abafados na
espessura dos bosques.
Na
101a Airbone, o 502o Regimento deve tomar as saídas
norte da Utah Beach, as aldeias de Saint-Germain e
Saint-Martin-de-Varreville, Mésières, Audouville-le-Hubert; o 506o
deve apossar-se das saídas de sul, dos povoados de Houdienville,
Pouppeville, Sainte-Marie-du-Mont; o 501o deve estabelecer-se
no Dove, ao norte de Carentan. Mas o nevoeiro, o vento e a DCA baralham
estas combinações longamente estudadas sobre o mapa. Os homens
juntam-se ao primeiro oficial que encontram. As escaramuças
verificam-se na obscuridade, com fracos destacamentos inimigos
acantonados nas aldeias e também, provavelmente, com grupos amigos, vítimas
de equívocos. Ao clarear do dia poucos são os elementos da 101a
que se conservam nos lugares programados. Mas a irrupção de tantos
soldados do ar nas suas retaguardas desorganizou a defesa costeira alemã.
Compõem
a 82a Airbone, o 505o, o 507o e o 508o
regimentos de pára-quedistas. O 505o deve apossar-se de
Sainte-Mère-Eglise e garantir as passagens do Merdetet até
Chef-du-Pont e La Fière. Os dois outros regimentos devem constituir a
cabeça-de-ponte para oeste, entre o Douve e o Merderet.
Quando
o céu se torna róseo, uma parte do 507o e do 508o
ainda patina nas campinas inundadas. Uma outra parte desceu num terreno
sólido, perto de Amfreville, mas as sebes são espessas e o
reagrupamento se faz muito lentamente. Nada teria sido feito se um grupo
de pára-quedistas não houvesse entrado no pátio de um pequeno
castelo, perto de Picauville. Uma Mercedes aparece. Deslizando rumo ao
campo de exercício de Rennes, o general comandante da 91a
Divisão de Fallsschirmjäger, William Falley, resolveu voltar ao seu QG
quando a ressonância dos bombardeios aéreos o convenceu da seriedade
dos acontecimentos que iriam marcar esse dia nascente. Um deles é sua
própria morte. Uma rajada colhe seu carro. Ele sai, de pistola em
punho. Outra rajada o derruba. A divisão que defende o centro de
Contentin perdeu seu chefe no começo do combate.
Na
outra margem do Merderet a sorte sorri ao 505o. O episódio
da tomada de Sainte-Mère-Eglise é o mais célebre do desembarque. O 3o
Batalhão do 505o pousou com notável exatidão na dropping
zone 0, 1.500 metros a noroeste de Sainte-Mère-Église, no lugar
chamado vale da Miséria. O Tenente-Coronel Edward Drause reagrupou
rapidamente seu pessoal e, quando ao assalto à localidade, deu ordem
para utilizar apenas granadas e facas. Havia uns 30 alemães e mais a
turma de um comboio de passagem. Foram rapidamente mortos ou presos.
Durante
essas escaramuças, o alerta se propaga nos escalões do Comando alemão.
Em Saint-Lô, Marcks dirige, rumo ao Carentan, seu único regimento de
reserva. No Mans, Dollmann dá ordens de liquidar, através de uma ação
concêntrica, os pára-quedistas que descerem em torno de
Sainte-Mère-Église.
Em La Toche-Guyon, Speidel prescreve à 21a Pz, reserva do
Grupo B, a limpeza da margem direita do Orne. Em Saint-Germain,
Rundstedt alerta a Pz Lehr e a 12a Pz SS, prevenindo-as de
que deverão rumar para Caen. Um pouco antes das 6 horas, o chefe de
estado-maior Blummentritt chama a Berchtesgaden o adjunto de Jodl,
Warlimont, informa-o das decisões de seu marechal e assegura-lhe que a
invasão está desencadeada. O sono de Hitler é intocável, mas
Warlimont telefona a Jodl. Este desperta um homem cético: as descidas
de pára-quedas são uma simulação; o verdadeiro desembarque não se
efetuará na baixa Normandia.
Na
Mancha, o vento sopra com força 5. As vagas espumam. O
enjôo põe à prova a maioria dos passageiros do
Grande Cruzeiro. No horizonte, trovões e relâmpagos
indicam o terrível embate que está sofrendo a costa
normanda: 1.056 Lancaster da RAF se encarniçam contra as dez
principais baterias alemães. Começaram pelas de Merville,
Fontenay e Saint-Martin-de-Varreville, sobre as quais o bombardeio
devia preceder a intervenção das divisões
aerotransportadas; continuam por La Pernelle, Maisy, ponta do Hoc,
Longues, Mont-Fleury, Quistreham e Houlgate. Nos navios, calma
absoluta. No mar, dilúvio de fogo.
Às
2h29 o LSH Bayfield, conduzindo o General Lawton Collins, comandante do
7o Corpo dos EUA, ancora a 17 braças de profundidade, 11
milhas ao largo de Utah Beach; 20 minutos depois, o LSH Ancon, levando o
General Gerow, comandante do 5o Corpo fundeia, nas mesmas
condições, diante de Omaha. Em torno dos dois QG flutuantes, todos os
navios de imobilizam. Sete minutos depois, os botes de desembarque começam
a dançar sobre as vagas. Um ligeiro clarão de lua dilui a escuridão,
mas a costa está invisível. É irreal, quase angustiante, proceder aos
preparativos para o maior desembarque da História, diante desse litoral
que estaria totalmente silencioso, se não fosse o tapete de bombas que,
a intervalos regulares, se abatem sobre ele.
Na
água agitada, entre os pálidos salpicos de espumas, formam-se os
comboios de assalto. À frente, os barcos-pilotos, seguidos pelos lançadores
de fumaça. Depois, em colunas, as unidades especializadas, de PC ou
patrulheiras, LCT encarregadas de levar os carros anfíbios; outras LCT
lotadas de carros comuns; LCA inglesas e LCVP americanas transportam uma
seção de infantaria; LCG trazendo a artilharia; LCF conduzindo a DCA;
LST entupidas de homens de material; LCR trazendo as baterias de
lança-foguetes.
Os destróieres, galgos escoltando tartarugas, estabelecem seu posto nos
flancos. Uma frota sai de outra frota e mergulha na noite, rumo a uma
terra de mistério de perigo.
A
distância da costa impõe uma navegação de três horas, sobre vagas
de mais de um metro de altura, a esta frota de quilha rasa, dificilmente
manobrável, reagindo brutalmente ao balançar das ondas. O enjôo chega
mesmo a afetar as tripulações, tão recentemente habituadas ao mar. A
Força U, vogando para Utah Beach, protegida pelo posto avançado de
Cotentin, entra progressivamente em águas mais calmas. A Força O, ao
contrário, continua a sofrer nas vagas como se fosse feito de cortiça
- enquanto lentamente, como contra a vontade, o dia nasce.
Nas
praias atribuídas aos ingleses, a aproximação foi mais tardia. Os
transportes avançaram apenas até 7 milhas da costa. Às 5h05, no
momento em que a noite começa a dissolver-se, clarões verdes na superfície
das águas provam que o X-20 e o X-23 estão no seu posto de balizas.
Alguns instantes depois, os navios, entre os quais o Warspite e o
Ramillies, ancoram e os aviões da Fleet Air Arm lançam uma cortina de
fumaça para esconder a frota das baterias pesadas do Havre. A formação
de tropas de assalto começa em seguida.
Mas,
no nevoeiro artificial, surgem três flechas. Três vedettes
torpedeiras, T-38, Jaguar e Möwe, três mosquitos, uma trintena de
homens, uma centena de toneladas, atacam os senhores do mar. Uma
artilharia terrível os acolhe. Fazem, pois, meia-volta, retornam à
cortina de fumaça - mas depois de ter lançado seus torpedos. Um destes
atinge o destróier norueguês Svenney nas suas caldeiras. O barco
afunda imediatamente.
Este
ataque alemão, insignificante e intrépido, mostra que se conhece a
aproximação da frota de invasão. Às 3h09, um dos últimos radares
alemães revelou enfim numerosos navios ao largo do Port-en-Besin. O
Almirante Krancke deu ordem de intervenção às flotilhas de Cherburgo
e do Havre. A de Cherburgo ficou imobilizada no porto, diante da ação
da aviação inimiga. A do Havre fez uma vítima: um navio de guerra
entre 1.200!
Partem
de terra alguns tiros de canhão. No ar, uma carga de 1.630 Liberartors
da USAF substitui os Lancaster da RAF. No mar, os couraçados e os
cruzadores atingiram as Fire Support Areas, a 10 braças de
profundidade. Seus canhões abrem fogo às 5h30, contra Sword, Juno e
Gold. Sobre Omaha e Utah o ataque só principia às 5h50, havendo do
americanos preferido a surpresa à demora de uma preparação. As
lanchas de desembarque estão a 3.000 metros das praias. A maré é a
mais baixa possível. O sol ainda não surgiu.
6h -
12h

Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr desembarca em Utah
Utah
Beach. Um dos primeiros americanos que pisa a terra francesa, exatamente
às 6h39, é o Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr, fiel à tradição de
bravura dos Roosevelt de Oyster Bay, homônimos e rivais de Roosevelt de
Hyde park e do “New Deal”. Adiante, em cima, atrás dele, os
foguetes lançados pelo LCR fazem um barulho infernal. Roosevelt, que
tinha estudado o terreno, não o reconhece. Compreende que uma corrente
afastou os barcos para o sul, até a aldeia de Madeilene, onde termina o
caminho de Sainte-Marie-du-Mont. Lá estava um blockhaus armado com uma
peça de guerra e uma velha torre de proteção de tanque, constituindo
o ponto de apoio n° 5. Os defensores, que pertencem à 3a
Companhia do 919o RI, foram enterrados pelo bombardeio. Os
americanos os desenterram. O oficial alemão, Tenente Janke, deixa-se
fotografar ao lado deles, diante da fortaleza.
Nessa
praia, atingida por equívoco, porém facilmente conquistada, o
desembarque se organiza admiravelmente. Alguns barcos, entre os quais um
LCT, naufraga de encontro às minas, mas as equipes especiais,
Underwater Demolition Teams, destroem rapidamente os obstáculos e
desfazem as armadilhas. A ressaca é um débil marulhar; os homens
entram na água alegremente, mais atrapalhados pela rápida maré
montante do que por alguns obuses vindo das baterias de Saint-Marcouf.
As ondas de assalto se sucedem. As extremidades de vanguarda da 4a
DI dos EUA se lançam para os caminhos de Audouville, de Sainte-Marie e
de Pouppeville, procurando ligação com os pára-quedistas de Taylor.
Diante
de Omaha Beach o mar continua violento. Rolos de espuma correm sobre a
areia. Os barcos de desembarque respeitaram o horário, mas a ressaca os
maltrata e a espessa fumaça que cobre a costa torna difícil pilotar.
À esquerda, 32 tanques anfíbios são lançados a 5.000 metros da
praia, mas seus flutuadores são feitos para águas tranqüilas, e
todos, salvo dois, submergem juntamente com sua equipagem. À direita,
28 outros DD deveriam ser lançados à água nas mesmas condições:
avaliando com exatidão o estado do mar, o Tenente-Comandante Rockwall
encalha seu LCT, em vez de fazer nadar seus pesados patos. Os carros
saem da água atirando. Mas a reposta que recebem é áspera. Obuses de
88 mm os estripam, perfurando também os LCT enquanto eles flutuam
novamente.
O
canhão não é único a falar. Rajadas de armas automáticas varrem a
longa esplanada, a descoberto pela maré. Os homens que desembarcam dos
LCVP tombam nas ondas, ou, se conseguem sair da água, tentam
refugiar-se na areia. Os mais felizes alcançam o dique que limita a
praia. Mas a areia está sob a mira do fogo. Os metralhadores e os
artilheiros alemães atiram “sobre um tapete de homens”. O oficial
que comanda a ponta de La Percée telefona a seu coronel informando que
vê a costa atravancada de tanques, viaturas, barcos em chamas, cobertos
de mortos e feridos.
Em
março, Rommel passou pelo local. Sua cólera causou um efeito mágico.
Se faltou material para as minas, em compensação todos os engenhos de
que ele foi propagador estão acumulados na areia: uma barreira composta
de elementos C ou “grades belgas”, várias filas de “cavalos de
frisa”, várias faixas de “tetraedos” e de “ouriços”. As
fotografias aéreas revelaram esses trabalhos - cujo efeito se pensou
destruir com o desembarque em maré baixa -, mas, em virtude da orientação
dos desvãos de proteção dos canhões, não revelam as armas de proteção
dos flancos, aninhadas nas escarpas. Principalmente nenhum órgão de
informação teve conhecimento da mais grave conseqüência resultante
da inspeção de Rommel. Sustentando, como sempre, que as tropas de
reserva não serviam para nada, empurrou para a primeira linha a 352a
DI. Os americanos supunham cair sobre um setor mantido por um velho
regimento da 719a Divisão de posição; caem sobre uma divisão
de primeira ordem, cuidadosamente entrincheirada.
Uma
funesta prudência americana, aliás, favoreceu a defesa. O temor dos
ataques retardou de 2 a 3 segundos o lançamento das bombas jogadas
pelos Liberator. A maior parte caiu a 3 ou 4 km no interior das terras.
Por outro lado, o apoio naval fornecido pelos couraçados Texas e
Arkansas, o cruzador inglês Glasgow, os cruzadores franceses Montcalm e
Georges-Leygues foi muito rápido para produzir resultado efetivo de
neutralização. As defesas costeiras ficaram, de um modo geral,
intactas, e seus ocupantes, ilesos.
Na
ponta do Hoc um erro de identificação retarda o assalto. Os LCVP e os
DUKW, que transportam o batalhão dos Rangers, dirigem-se para a ponta
da Percée, mas o Coronel Rudder, cujo nome significa “leme”,
percebeu o engano e retificou-o. Os Rangers
escalam as escarpas debaixo da fuzilaria. Chegando ao cume, o que
encontram em lugar de bateria são troncos de árvores. Os alemães
haviam retirado os seis 155 mm, ao terminar a construção das
casamatas. Aliás, quatro foram descobertos pouco depois, debaixo das
redes de camuflagem, perto de Vierville, em Grandcamp, e foram destruídos.
No
fim da manhã, a situação de Omaha Beach é alarmante. Depois dos DD,
os caminhões anfíbios DUKW foram liquidados juntamente com a
artilharia que traziam. A praia está atulhada de material destruído. A
maré alta afoga os feridos. As unidades de assalto continuam a chegar,
os homens desembarcam com água até o pescoço, terminando por
imobilizarem-se contra o dique. Os únicos americanos que conseguiram
sair de Omaha Beach são o Coronel Canham, comandante do 116o
RI, o Brigadeiro-General Cota, segundo-comandante da 1a DI, e
alguns soldados que conseguiram carregar. Com ajuda de uma
investida violenta abriram uma brecha na rede de arame farpado que
obstruía a entrada do caminho escavado de Saint-Laurent. Acima deles, o
mato queima com uma fumaça acre. Plantado no flanco arenoso do pequeno
barranco, os dois chefes esperam o momento propício. Os obuses dos
destróieres, que se aproveitam da maré alta para se aproximarem a 1
km, passam rente às suas cabeças e vão devastar os ninhos de resistência
alemã.
Também
entre os britânicos, o mar fez estragos. Engoliu perto de 50 velhos
tanques Centaur, equipados com obuses de 95 mm para fornecer às
unidades de assalto o apoio móvel da artilharia. Mas a ressaca é muito
menos violenta em Sword, Juno e Gold do que em Omaha, e os soldados da
716a DI, não valem os da 352a. O desembarque britânico
se desenvolve não sem perdas, mas pelo menos sem crise grave.

Britânicos desembarcam sob fogo em Gold, H+15minutos
No
fim da manhã, na zona Gold, o ponto de apoio do Hamel mantém-se firme,
mas a 50a Divisão se estende para Arromanches e Ver-su-Mer.
Na zona Juno, o ponto de apoio de Courseulles também oferece resistência,
mas os canadenses o contornam e se elevam sobre as colinas. Na zona
Sword, o ponto de apoio de Le Brèche caiu, e o Comando n° 4,
abrangendo duas seções francesas do Comando n° 10, ataca Ouistreham.
Enfim, a 6a Airbone, reforçada por um desembarque de
planadores, organiza-se no entroncamento de Ranville-Bénouville.
No
lado alemão, Jodl telefonou a Rundstedt, vetando suas pretensões: as
duas divisões que o Feldmarschall pensou poder acionar diretamente só
poderiam ser deslocadas com a autorização do Fuhrer - que está
dormindo. Rundstedt resigna-se, sem mesmo pedir que acordem o
dorminhoco. Resignação sarcástica - diz Speidel. O cabo boêmio quer
comandar seus exércitos; que os comande. O generalfeldmarschall Gerd
von Rundstedt lava as mãos.
Rommel
está a caminho. Informado da ofensiva às 6h30, renunciou à sua audiência
com Hitler e corre para retomar seu comando. Aliás, não está
absolutamente convencido de que se trate do verdadeiro plano, e sim de
uma diversão feita para atrair as reservas alemães à baixa Normandia.
É em torno da embocadura do Somme, diz ele, que o inimigo dará o
grande golpe.
12h - 18h
Ao
meio-dia, Churchill assoma à tribuna na Câmara dos Comuns. Exaspera a
curiosidade de todos falando durante 20 minutos da tomada de Roma, que já
não interessa a ninguém, depois descreve em termos grandiosos o
desembarque que se está efetuando. “Até agora - diz - tudo se vem
passando de acordo com os planos”.
Em
Obersalzberg, Hitler acorda. Não foi registrada sua primeira reação
à notícia do desembarque. O grande comunicado será feito no Castelo
Klessheim, distante uma hora de carro, na reunião em honra do novo
chefe do governo húngaro, o General Astojai, convidado oficial. O
programa não foi alterado. Diante do mapa da Normandia, Hitler graceja
em dialeto austríaco: “Miam Miam! Eles vêm cair na boca do Grande
Lobo! Bem bom!”. Todo mundo cai na gargalhada. Em seguida Hitler louva
Jodl pelo seu “veto” matinal: tal como ele, não acredita que se
trate da verdadeira invasão.
No
Cotentin, a luta prossegue em câmara lenta. Chamado de Périers para
limpar a região de Carentan com seu batalhão de pára-quedistas, o
Major Barão Von der Heydte sobe ao campanário de Saint-Come-su-Mont,
na entrada de Sainte-Mère-Église. O mar está coberto de navios até o
infinito e centenas de pequenos barcos descarregam tropas e material.
“No entanto, não tive a impressão de que uma grande batalha estava
em curso. O sol brilhava. Fora alguns tiros de fuzil, tudo estava calmo.
O vaivém das embarcações fazia pensar num domingo de verão no lago
Wannsee...” Utah Beach e os caminhos que levam a ela estão
engarrafados. O 8o RI experimenta passar pelo pântano:
atola-se e desiste. Às 12h15, está feita a junção com o 501o
de pára-quedistas que acaba de conquistar Poupperville, apesar de uma
resistência dura. Às 12 horas, a junção faz-se em
Audouville-la-Hubert, com o 502o. Os pântanos costeiros são
atravessados e a 101a Airbone cumpriu sua missão.
No
interior, a 82a luta. A conquista de Sainte-Mère-Eglise
cortou a grande estrada de Cherburgo e dá aos americanos o controle da
região alta situada entre os pântanos costeiros e os baixios de
Merderet. A ação concêntrica ordenada pelos General Dollmann tem por
fim retomar a cidadezinha. O 1.058o Regimento da 709a
DI ataca vindo do norte: está parado no povoado de Neuville-au-Plain.
Um ataque vindo do sul é também repelido. Em compensação, o 1.057o
RI retoma a passagem de Chef-du-Pont e de La Fière. Muitos pára-quedistas
caem prisioneiros a oeste do Merderet. Outros se reagrupam em torno da
aldeia de Amfreville e sobre a elevação semeada de fazendas que a
inundação desapruma, em frente a Chef-du-Pont.
No
setor de Omaha, o Tenente-General Dietrich Kraiss, que comanda a 352a
DI comunica que susteve a invasão na própria praia. Essa convicção
se reflete no comunicado de 13 horas do 84o AK; “Em
Vierville o desembarque pode ser considerado repelido...” Mas Kraiss
está inquieto a respeito da sua direita, ameaçada de ser absorvida
pela progressão inglesa. Dirige para o leste o 915o RI, sob
o comando do Coronel Meyer, dando-lhe ordem de contornar Bayeux e
contra-atacar entre Bazenville e Crépon. Diante de Omaha Beach não
resta qualquer reserva.
Ora,
os americanos vencem a depressão em que se encontram. Por mais vivo que
seja, falta ao fogo alemão densidade, continuidade, estando a praia
ocupada, afinal de contas, apenas por um batalhão reforçado do 914o
RI. Alguns oficiais enérgicos transpõem o dique, arrastando soldados
dos mais bravos. Aproveitando a maré cheia, o LCT
30 e o LCI 54 mergulham na onda de calhaus, encalham justamente
na entrada do recôncavo de Coleville, no qual os homens se precipitam.
Um golpe direto de um destróier desmantela a casamata de Moulins, cujos
defensores se rendem. Os bulldozers blindados abrem brechas nas dunas.
Lentamente, a linha americana se ergue sobre a colina, onde as primeiras
sebes, pouco desenvolvidas, fornecem abrigos.
É
principalmente para a direita, para Caen, que o Comando alemão orienta
sua preocupação. Um poderoso instrumento se movimenta: a 21a
Divisão Blindada, com o poderio de 16.000 homens, de 127 PzKw 4, de 40
canhões de assalto, de 28 peças de 88 mm, etc. Antes de mais nada, ela
recebe ordens de limpar a margem direita do Orne, dos pára-quedistas
que desceram durante a noite. Chegando ao campo de batalha, apesar de
sua perna ortopédica, o General Marcks vê, de golpe, que esta missão
já não corresponde à situação. Encontra o coronel Oppeln
Bronikovsky, que comanda o 22o Regimento de tanques, e, sob
fogo, lhe dá suas instruções. Oppeln deve transportar seu regimento
à margem esquerda do Orne e contra-atacar a fundo, rumo a Luc-sur-Mer.
“Depende de você - diz Marcks - que a invasão seja repelida”.
Deixando o coronel entregue à execução de sua missão, o general põe-se
à procura de outras tropas, encontra um batalhão do 192o Pz
Gr e orienta-o igualmente rumo a Luc-sur-Mer. O impossível deve ser
feito para que o ataque inglês seja desbaratado, para que o desembarque
se desorganize, contando com a intervenção das reservas gerais que o
liquidarão.

Commandos britânicos, apoiados por Shermans DD, avançam de Sword para o interior
Oppeln
apressa-se. Sua tarefa é difícil. O único caminho praticável do Orne
é uma ponte de Caen que está de pé. O 22a Pz atravessa a
cidade em chamas. Os caças-bombardeiros o perseguem à saída. Ele sobe
a toda pressa a colina de Lebisey, atravessa a aldeia, desce em um
pequeno vale atapetado de verdura. Quando chega diante de Biéville, os
batalhões de Norfolk e Warwickshire, reforçados por canhões
automotores, acabaram de tomar a localidade.
Caen
está a 7 km. Caen
é o objetivo principal deste dia. Ainda não são 6 horas da tarde.
O
encontro é áspero. Rechaçados, os tanques tentam contornar Biéville
pelos vales de Périers. Destacamentos do Shoropshire Ligt Infantry e da
Staffordshire Yeomanry destroem uma meia-dúzia deles. Caindo do céu, 8
bombardeiros de mergulho Typhoon incendeiam vários outros. O regimento
recua, reagrupa-se nos limites de Caen. Sua intervenção impediu que a
cidade fosse conquistada já na primeira noite. Contudo, não impediu a
invasão.
O
contra-ataque da 192a Pz Gr foi mais longe. Caindo no
intervalo das zonas Sword e Juno, seu ímpeto atinge o mar. Os
granadeiros desembaraçam os centros de resistência de Saint-Aubin, de
Luc e de Douvres-la-Délivrande, põem-se na defensiva, esperam os
tanques... Esperam em vão.
No
restante do setor britânico, a situação é satisfatória. A 3a
Divisão canadense ganhou vários quilômetros e a 50a, reforçada
pelos primeiros elementos desembarcados da 7a Armoured,
aproxima-se de Bayeux.
No
fim da tarde, Rommel chega a Roche-Guyon. Depara com as decisões de
Hitler. A 12a Pz SS, estacionada ao sul de Rouen, e a Panzer
Lehr, que está na região de Dreux, são postas à sua disposição.
Por outro lado, o Fuhrer proíbe toda subtração do 15o Exército,
e até anulou uma ordem de Dollmann que chamava à Normandia uma parte
das tropas da Bretanha. Decidiu, de uma vez por todas, que o 6 de junho
é uma dissimulação, e que a verdadeira invasão ainda vai chegar.
20h - 24h
A
batalha termina cedo. As tropas de assalto estão fatigadas e os alemães
não tem meios de lançar um contra-ataque noturno. De Ranville até
Sainte-Mère-Église, o fogo cessa ao por do sol.
Em
compensação, a aviação noturna volta ao trabalho. Sua missão é de
interditar o campo de batalha, impossibilitando a penetração das
reservas inimigas. Bombas fulgurantes que os soldados alemães chamam
“árvores de Natal”, Weihnachtsbäume desmascaram as colunas em
marcha, e o bombardeio sistemático dos postos de passagem obrigatória
multiplica as perdas e os atrasos. Bayerlein contou a Paul Carell o que
foi a noite da Panzer Lehr deslocando-se rumo a Caen. Sées atravessada
de bombas, depois, Argentan, às 2 horas da manhã: toda a cidade em
chamas, iluminada como em pleno dia, imensa fogueira debaixo de um
bombardeio ininterrupto, as ruas obstruídas por escombros, a ponte do
Orne estraçalhada. Os pioneiros restabelecem uma passagem, mas
Bayerlein deve caminhar através de desvios para alcançar Flers e Condésur-Noireau,
igualmente arruinadas. Aponta o dia, nenhuma das cinco colunas, nas
quais a divisão foi fracionada, conseguiu ultrapassar Falaise, a 25 km
do campo de batalha - e os Jabos recomeçam a imobilizar contra o solo
tudo que tem movimento. A Panzer Lehr deveria contra-atacar ao romper da
aurora, mas não se move até a noite.
Em contraste, os Aliados. Antes do cair da noite, o chefe do
serviço de contra-espionagem do 84o corpo alemão, Major Hayn, foi
postar-se em Cabourg para ver com seus olhos o desembarque. “A
atividade - conta ele - de um grande porto em tempo de paz”. A
Luftwaffe esteve completamente ausente no correr do dia. A divisão de
caça que se esperava de Metz foi totalmente destruída, e, com exceção
de 3 FW-190, prontamente postos em fuga, nenhum avião de cruz negra foi
visto sobre o campo de batalha normando.
À
meia-noite, 75.215 britânicos e 56.500 americanos, mais 15.500
americanos e 7.900 britânicos das formações aerotransportadas, num
total de mais de 155.000 homens, pisaram a França. As follow up
divisions, 29a e 90a americanas e 51a e
7a blindadas britânicas estão em pleno desembarque. Rommel
tinha razão: perder a batalha das praias significa a Europa aberta à
invasão. A Mancha é para os anglo-americanos um freio muito menor do
que é, para os alemães, a barragem desta diabólica aviação, dona do
céu.
Taticamente,
os objetivos pretendidos para o 6 de junho à noite não foram atingidos
em parte alguma. No Cotentin, o terreno conquistado é duas vezes menor
do que se previu, o estabelecimento de uma cabeça-de-ponte sobre o
Merderet fracassou e, ao sul, de Sainte-Mère-Église, um batalhão
georgiano corta ainda a estrada de Cherburgo. Diante de Omaha Beach, os
alemães terminaram por ceder Colleville e Saint-Laurent-sur-Mer, mas a
penetração não ultrapassa em parte alguma 1.500 metros - e o que se
queria, desde a tarde, era atingir o Aure, a 8 km das praias! No setor
britânico, faltou um toque de inspiração e de audácia para que os
brilhantes sucessos da manhã se convertessem nos objetivos do dia. A
junção com os americanos não foi feita. A continuidade da cabeça-de-ponte
não está realizada. Nem Caen nem seu aeroporto, Carpiquet, foram
tomados. Diante de Bayeux, a 56a Brigada estacionou sua
progressão às 20h30, quando acabava de atingir a cidade intacta e
vazia de inimigos.
Apesar dessas decepções, o dia é uma magnífica vitória. Os Estados Unidos e a Inglaterra vibram de orgulho. A Europa cativa vibra de esperança. Na França, os maquis se armam, cortam as linhas telefônicas, tomam posição ao longo dos caminhos, para atormentar as colunas alemães. Os ferroviários abandonam os trens de tropas, sabotam as locomotivas e as manobras dos trilhos.
O comunicado alemão da tarde limita-se a anunciar que violentos combates se processam na costa atacada. Mas Hitler já manifestou sua impaciência e sua decepção, lançando ordem sobre ordem para que o desembarque seja rechaçado - “no mais tardar, esta noite”. Ele começa a suspeitar de um esmorecimento criminoso e até de atos de traição.