Bren Gun


Dos vários tipos de metralhadoras que os britânicos possuíam, só o fabricado pela Vickers era projeto inglês, coisa extraordinária, porque a aceitação de qualquer projeto de proveniência estrangeira esbarrava sempre em grande relutância. Isto é válido pelo menos em tempo de paz. Em tempo de guerra vale tudo. Quando a Primeira Guerra Mundial acabou, a arma leve padronizada era a velha Lewis, que era tudo, menos leve e que também possuía a reputação nada invejável de dar freqüentes enguiços em ação, e por volta de 1931 já estava desaparecendo, substituída pela Vickers-Berthier-BV. Outros devem escrever a história dessa arma, porque ela merece ser estudada, mas, excetuando-se o verificado na Índia, ela só apareceu em pequee110 número, tendo sido abandonada em favor da ZB vz.26, tcheca, conhecida como ZB vz.30. Ela era considerada tão mais avançada que a VB, que esta foi totalmente eliminada.

Porém a Vickers-Berthier foi posteriormente adotada pelo Exército indiano e também viu extenso serviço durante a Segunda Guerra Mundial. Já a ZB vz.26 foi  também foi utilizada na Segunda Guerra Mundial pelas forças alemãs, incluindo as unidades das Waffen-SS. É interessante saber que muitas ZB com a calibre 7,92mm foram enviadas para a China para ajudar na luta conta os japoneses, e mais tarde foram usadas contra as forças das Nações Unidas na Coréia, nomeadamente unidades britânicas e da Commonwealth. Algumas ZB ex-chinesas também foram utilizadas na fase inicial do conflito do Vietnã.

Surge a Bren

Solicitou-se à fábrica tcheca que fizesse novos canos para servir ao cartucho de .303 sem aro, bem como os carregadores. Houve outras modificações, o cano foi encurtado, a abertura para o gás ficou colocada um pouco mais para trás e o carregador ampliou-st~ para acomodar 30 cartuchos. Em 1934, a arma, já no novo estilo, estava pronta para ser submetida a testes, sendo adotada em maio de 1935 como substituta da Lewis, ,,: foi bem a tempo. Os direitos de fabricação foram adquiridos à Tcheco-eslováquia e sua fabricação teve início em setembro de 1937, mas muito lentamente. A arma ganhou o nome pelo qual veio a ser conhecida Bren tirado das duas do nome da cidade e da firma onde ela se originou, Brno, e Em, da Enfield, a Royal  Small Arms Factory, onde seria fabricada. Seis meses depois, apenas 200 prontas, havendo 30.000 já completadas e distribuídas em 1940. A maioria se perdeu em Dunquerque, restante apenas 2.500 na Grã-Bretanha para enfrentar a invasão nazista.

Neste momento, a Lewis reapareceu em cena: 50.000 foram retiradas dos depósitos e renovadas. A maioria se compunha de armas antiaéreas que haviam sobrado da Primeira Guerra Mundial e que foram distribuídas entre unidades de infantaria, indo também parar nos navios mercantes, como arma antiaérea de valor limitado contra os ataques dos bombardeiros de mergulho alemães, em águas costeiras. A Lewis também equipou toda a sorte de instalações antiaéreas espalhadas pelo país, nem todas muito bem situadas.

Soldado do 4th Kings Shropshire Light Infantry-KSLI,

dispara a sua Bren durante combates no Noroeste da Europa em 1944

Entrementes, como resultado dos esforços realizados em Enfield, foram renovados os estoques de Bren através de trabalho que não sofreu interrupção durante toda a guerra, atingindo a produção semanal de 1.000 armas a partir de 1943. Depois de 1945 suspendeu-se a sua fabricação, embora muitas fossem renovadas e tivessem os canos trocados; ainda existem grandes estoques, em várias partes do mundo.

Não há dúvida de que se trata de uma arma extremamente boa, ideal como metralhadora leve (ou fuzil metralhador) e sua única deficiência era a munição usada. Recebendo o novo cano de 7,62 mm OTAN, ainda está em uso no exército britânico. Foi, provavelmente, a melhor das metralhadoras leves produzidas em qualquer parte do mundo para disparar munição no velho estilo. Atualmente, com o surgimento de calibres melhores e de munição com desempenho mais alto, já não goza do mesmo conceito, mas não duvidemos de que, em sua época, a despeito de suas deficiências, ela já foi vista como uma arma suprema. Ela lutou em todos os teatros de guerra, em todos os continentes, durante a Segunda Guerra, e as fábricas conseguiram quase manter o fluxo de substituições, não permitindo que os estoques chegassem a pontos tão criticamente baixos como logo depois de Dunquerque. Todas as unidades britânicas regulares, inclusive as forças aerotransportadas, e das forças especiais, como os Commandos, Chindits e SBS, usaram a Bren.

Commandos britânicos próximos a Caen em 1944.

O da esquerda está armado com uma Bren Gun e o da direita com uma submetralhadora Sten.

Vale a pena descrever o Bren Gun pormenorizadamente, porque o desenho reaparece com muita freqüência. Trata-se de uma arma operada a gás, alimentada por carregador, de desenho convencional e simples, resistente, bem leve e com muito poucos defeitos. Merece parabéns a firma tcheca, por ter feito excelente trabalho. O êmbolo de gás fica debaixo do cano e ocupando pouco mais de metade do comprimento da versão do .303. Nisto ela diferia do original, porque o êmbolo de gás daquela era do comprimento do cano e ia ate a boca deste. Na saída do gás há um regulador de fácil ajuste, com quatro posições diferentes, permitindo que o atirador' use qualquer variação na cadência de fogo ou compense a presença de sujeira no mecanismo. A capacidade de variar a potência de uma arma é um complemento valioso, nem sempre encontrado nas chamadas "armas avançadas" de hoje. Tudo o que o atirador do Bren Gun tinha de fazer era enfiar a ponta de uma bala na ranhura do regulador de gás e girá-Io para o buraco maior, uns noventa graus, o que era feito em segundos. O cano era do tipo de mudança rápida, mantido no lugar por um encaixe corrediço existente na abertura do gás (que saía com ele) e por uma porca de rosca larga colocada na culatra. Um quarto de uma volta dada à manivela ligada à porca solta o cano, que então é retirado pela alça de transporte e substituído por outro. Esta operação leva seis ou sete segundos e são poucas as armas que a igualam nisso.

A famosa Bren Gun

O receptor e o êmbolo do gás são uma peça só, usinada na mesma forjadura, com o encaixe do carregador situado na parte superior e o mecanismo de disparo preso à parte inferior. Atrás fica um amortecedor, de tamanho considerável, que absorve qualquer excesso de energia restante nas partes de recuo. O carregador é curvo, para acomodar o cartucho de .303, e embora seja graduado para 30 cartuchos, normalmente o carregam com 28 ou 29, para diminuir as dificuldades de alimentação comuns ao cartucho de .303 em qualquer metralhadora. A munição sem aro dá um carregador retilíneo e que enguiça muito pouco. De certo modo é uma pena que a arma não conservasse a munição original, de  7,62 mm, para a qual foi feita, como aconteceu com o Besa. A abertura do carregador tem uma tampa corrediça que o fecha para impedir a entrada de sujeira, o mesmo acontecendo com a abertura de ejeção, situada sob o receptor.

Soldados britânicos da 50a Divisão (Nortumbriana) - Todos estão usando o uniforme padrão P37/40, capacete Mark II com rede e tiras, botas e tornozeleiras Mk 37 cinto Mk 37 bolsas Mk II & III, cantis Mk 37 e ferramentas de cavar. As armas consistem na Sten SMG Mk II, o fuzil Lee Enfield Nº 4 Mk I  7,7mm e a metralhadora Bren Gun lhes dando cobertura.

Na extremidade dianteira do cilindro de gás fixa-se o bipé, que tem pés ajustáveis. Os acessórios são de madeira e a alça de mira, meio complicada, foi mais tarde trocada por uma lâmina corrediça simples. A massa de mira fica sobre o cano, permitindo assim que cada cano seja combinado com i1 arma, porque se ajusta o zero movendo a massa de mira. O peso total era de 9,900 kg com a versão .303 e ela disparava bem até 500 m ou mais. Uma alavanca de registro permitia o disparo de tiros isolados e os atiradores eram treinados a usá-Ia sempre que possível. Havia alguns acessórios, ou "opcionais extras", como dizemos agora que vinham com a arma. Um deles era o tripé, que roubava à arma qualquer pretensão de ser leve, pois pesava outros 9,900 kg. ou mais, e só oferecia uma plataforma estável num arco limitado. Em outras palavras assim que a metralhadora era montada no tripé, ela passava a cobrir um campo limitado de fogo e perdia a mobilidade, o que certamente é a principal exigência feita a essa classe de arma. Entretanto, por tudo isso, o tripé não chegou a ser muito usado, embora tivesse sido produzido em grande quantidade. Outra curiosidade do Bren Gun Mark 1 era um segundo punho de pistola, situado abaixo do coice da coronha, para a mão esquerda do atirador e uma alça presa à parte de cima, para pendurar ao ombro. Nenhum dos dois durou muito, o punho de pistola desaparecendo primeiro, porque os atiradores britânicos nunca seguram a arma assim; sua mão esquerda sempre fica sobre a arma. A alça desapareceu no Mark 2, quando a produção foi simplificada.

Uma Bren Gun usada na função de arma antiaérea na África do Norte

O Bren Gun básico tinha algumas deficiências reais; o carregador era a característica mais incômoda. Verificavam-se enguiços no alimentador sempre que na colocação dos cartuchos fosse negligenciado o cuidado de colocar aro diante de aro, certinho. A despeito de ser o projeto relativamente simples, havia muitas operações de usinagem na manufatura, em particular do receptor, mas esta era a doença endêmica de que padecia a indústria de armamento da época. O Bren Gun foi apoiado por uma arma muito mais venerável, a Metralhadora Média Vickers, que ficou em escalão de batalhão, ou seja, na companhia de petrechos do batalhão.

A. combinação da Bren com a Vickers funcionava muito bem, não sugerindo qualquer modificações durante toda a guerra. Uma completava a outra de maneira ideal; a Bren dava apoio móvel de fato ao grupo de combate, servindo de fuzil-metalhador, e a Vickers, o apoio de maior alcance, tanto na defesa como no ataque. A Bren, as vezes era transportada de um ponto a outro do campo de batalha na carreta Universal, ou Transportador Bren (Bren Gun Carrier), como era originariamente conhecida; nos últimos anos da guerra a Vickers foi el montada nesse veiculo, quando se descobriu que ele servia melhor a estas que às Bren.  

A pitoresca Carreta Universal, ou Transportador Bren (Bren Gun Carrier)

Na verdade, o chamado Transportador Bren tornou-se o pau-para-toda-obra da infantaria, sendo usado para todas as armas e petrechos de apoio, mas sua história só tem aqui cabimento no que respeita, ao seu papel original. A intenção era dar proteção e mobilidade à Bren no campo de batalha, mas as trincheiras de Flandres não reapareceram em 1940 e não é tático mover a metralhadora do grupo de combate se este também não se move do mesmo modo, coisa impossível porque os dias da infantaria blindada ainda estavam por vir, de modo que o veiculo passou às mãos de outros usuários.

Com a adoção do Exército britânico do calibre 7,62 milímetros da OTAN, o Bren foi re-projetado para este calibre, sendo equipado com um novo cano e magazine, continuando em serviço até a década de 1990. A arma foi renomeada como o L4 Light Machine Gun. A L4 foi substituída como metralhadora leve do grupo de combate pela L7 General Purpose Machine Gun (GPMG), uma arma mais pesada alimentada por uma cinta de munição. Este, por sua vez, foi completada em 1980 pela L86 Light Support Weapon que disparava a munição 5.56x45mm OTAN, deixando o Bren/L4 fora de serviço. A L4 foi usada pelos Royal Marines nas Falklands em 1982, como L4A2 LMG.

Um Royal Marine Commando nas Falklands em 1982, armado com sua L4A4 LMG semicamuflada.

Utilizadores

  • Forças britânicas e da Commonwealth.

  • Exército Republicano Irlandês (IRA), durante a Campanha de Fronteira até 1964.

  • Forças armadas irlandesas, utilizado pela Forças Reserva de Defesa (RDF), até ser substituído pelo FN MAG em 2006.

  • Exercito Nacional Revolucionário chinês do Generalíssimo Chiang Kai-shek da República da China durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e da Guerra Civil Chinesa

  • Brigade Mobil SOF da Polícia indonésia

  • Força Aérea grega até 1956.

  • Forças de Operações Gerais da Polícia Real Malaia (até substituída pela HK 11 OTAN 7,62).

  • Ambos os lados da Guerra Civil nepalês.

  • Exército Democrático Grego durante a Guerra Civil grega (1946-1949).

  • Exército indiano

  • Exército do Sri Lanka

  • Exército canadense durante a Segunda Guerra Mundial.

  • Polônia durante a Segunda Guerra Mundial.

  • Exército nepalês.


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Assunto: Bren Gun

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